Crítica de Quinta | O duelo dos suplentes
“Dividi a criança viva em duas partes, e dai uma metade a uma, e a outra metade a outra.” Assim decidiu Salomão, quando duas mulheres reivindicavam a mesma criança como sua
Em Paço do Lumiar, ninguém quer dividir a criança. Todos querem o filho inteiro, de preferência com seu sobrenome gravado no boletim de obras e no Instagram da prefeitura.
A Estrada do Cajueiro, que liga o Pátio Norte Shopping ao bairro La Belle, virou disputada não por quem vai pavimentá-la, um paliativo de tapa buracos já está sendo feito, mas por quem vai levar o crédito pela obra.
Dois vereadores, duas versões, um único tapa buracos.
Paulinho Lima Verde (PSD), suplente que assumiu cadeira desde o início do mandato, foi a primeira voz a reivindicar a paternidade. Na quarta-feira (22), anunciou que a Câmara aprovou indicação de sua autoria para a recuperação da via. Discurso pronto, vídeo gravado, divulgação feita.
Vinte e quatro horas depois, entra em cena Miguel Ângelo (PRD), suplente da mais recente reconfiguração “voluntária” da Casa. Segundo ele, a solicitação ao secretário de Infraestrutura, Marlus Melo, e ao próprio prefeito Fred Campos, teria sido feita uma semana antes do anúncio do colega.
Fontes ouvidas sob reserva na Câmara Municipal comentam, entre risos, que a coincidência de datas não seria exatamente coincidência. O modus operandi da maioria dos vereadores, como já publicamos outras vezes no nosso site é simples: descobrem de antemão onde o prefeito pretende agir e, a partir daí, protocolam indicações e gravam vídeos anunciando que aquilo seria fruto de pedido próprio. Na semana seguinte, como um passe de mágica, quando a obra sai do papel, querem levar a fama.
- Relembre aqui: Vereador se denuncia ao vivo nas redes sociais; veja o vídeo
Resta a este humilde blogueiro perguntar: precisaremos mesmo recorrer ao programa do Ratinho para fazer o DNA? Ou bastaria apenas lembrar que, como no julgamento de Salomão, quem verdadeiramente serve ao eleitor não é quem grita mais alto “é meu”, mas quem silenciosamente e diariamente briga pela população sem precisar de firulas.
Aqui, infelizmente, ninguém está disposto a renúnciar a glória e o protagonismo.
