Crítica de Quinta | 18, o número que insiste em voltar
Há quem diga que os números são frios, incapazes de carregar qualquer significado além da matemática. Pitágoras acreditava que os números revelavam a ordem invisível do universo. Carl Jung chamaria de sincronicidade aquilo que parece escapar ao mero acaso. A política, porém, costuma transformar coincidências em metáforas
Nesta semana, o número 18 voltou a assombrar a política local…
De um lado, a Polícia Federal cumpriu 18 mandados de busca e apreensão na nova fase da Operação Sem Desconto, investigação que alcança pessoas ligadas ao senador Weverton Rocha, incluindo familiares e aliados, como o prefeito de Paço do Lumiar. A decisão judicial descreve suspeitas que ainda serão submetidas ao devido processo legal. O senador rejeita as acusações e insiste na narrativa de que é alvo de perseguição política.
Do outro lado está seu primeiro suplente, Alderico Campos, irmão de Fred Campos. Sua família aparece vinculada à Operação 18 Minutos, investigação que apura movimentações financeiras envolvendo a empresa Qualitech. Somam-se a isso outros episódios públicos que, ao longo dos anos, colocaram o nome de Alderico sob o olhar de órgãos de controle e de investigações estatais, sem que tenha havido condenação definitiva ainda.
É preciso dizer isso porque o Estado de Direito não sobrevive sem a presunção de inocência. A Justiça condena por provas, nunca por coincidências.
Mas a política habita um território diferente. Aristóteles ensinava que a ética não se mede apenas pelos atos consumados, mas também pelas escolhas que moldam o caráter. E uma aliança política também é uma escolha moral.
Há quem enxergue apenas dois candidatos unidos por um projeto eleitoral. Outros verão uma sucessão de episódios que, reunidos, produzem desconforto. A diferença entre uma visão e outra não será resolvida por um despacho judicial, mas pela consciência de cada eleitor.
Os números, afinal, não possuem vontade própria. Somos nós que lhes damos significado. Ainda assim, às vezes eles parecem retornar como antigos mensageiros, lembrando que a história gosta de repetir seus símbolos antes de repetir seus desfechos.
Talvez o verdadeiro problema nunca tenha sido o 18.
Talvez seja a facilidade com que a política brasileira aprende a conviver com o questionável até transformá-lo em rotina. Escândalos deixam de causar espanto, investigações passam a integrar currículos e o que deveria despertar vigilância acaba recebido com normalidade por um povo sem memória e desacreditado da política.
Platão teria dito que a pior forma de cegueira humana não é a de quem não enxerga, mas a de quem se acostuma à escuridão. Uma democracia também pode adoecer desse hábito. Não quando surgem investigações, porque elas fazem parte das instituições, mas quando a sociedade perde a capacidade de se perguntar se aquelas coincidências ainda são apenas coincidências ou se já revelam um padrão.
A Justiça decidirá sobre a responsabilidade de cada investigado. A história julgará seus legados. A urna, porém, responderá a uma pergunta anterior a todas elas.
Que tipo de prudência um povo abandona quando deixa de considerar que, na política, nem todo símbolo é apenas um número?

Potência e ato, dizia Aristóteles: o que uma coisa pode vir a ser, e o que ela de fato se torna.
Os rapazes da foto, à época apoiadores de Flávio Dino, ainda não sabiam que seus nomes ficariam para a história. Resta ao tempo dizer se para o bem ou para o mal.
