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Memento Mori: o que os estoicos podem nos ensinar sobre a morte e a vida

Por que pensar na morte pode ser uma das formas mais profundas de aprender a viver? Para Sêneca, Marco Aurélio e Epicteto, lembrar que vamos morrer não era uma prática mórbida, mas um exercício de lucidez

Existe uma antiga expressão latina que atravessou séculos e ainda conserva uma força desconcertante: Memento Mori. “Lembra-te de que morrerás.”

À primeira vista, parece uma frase pessimista. Afinal, por que colocar a morte no centro dos pensamentos quando a vida já nos oferece preocupações suficientes?

Os estoicos pensavam justamente o contrário.

Para Sêneca, Marco Aurélio e Epicteto, lembrar da morte não significava cultivar tristeza, mas retirar da vida aquilo que é superficial. A morte funcionava como uma espécie de espelho. Quando lembramos que o tempo é limitado, algumas coisas perdem importância e outras finalmente revelam seu verdadeiro valor.

Sêneca talvez seja o mais direto nessa questão. Para ele, não recebemos necessariamente uma vida curta. Muitas vezes, somos nós que a tornamos curta ao desperdiçá-la.

O problema, portanto, não seria apenas morrer. Seria chegar ao fim da existência e perceber que passamos boa parte dela esperando começar a viver.

Esperamos terminar a faculdade. Conseguir um emprego melhor. Ganhar mais dinheiro. Encontrar alguém. Comprar uma casa. Resolver determinado problema. Chegar a uma idade em que, finalmente, teremos tempo para viver.

E, enquanto esperamos, o tempo passa.

É nesse sentido que Sêneca nos convida a fazer as pazes com a finitude. O passado já pertence à morte. O futuro ainda não nos pertence. Resta o presente, esse pequeno território onde a vida realmente acontece.

Marco Aurélio leva a reflexão para outro caminho. O imperador romano utilizava a lembrança da morte para combater a vaidade.

A morte, para ele, possui uma característica democrática que nenhum império consegue revogar. O poderoso e o anônimo, o imperador e o escravo, o rico e o pobre, todos estão submetidos à mesma condição humana.

Pensar nisso ajuda a diminuir o tamanho de algumas preocupações.

Quantas coisas nos tiram o sono porque alguém falou mal de nós? Quantas discussões alimentamos por orgulho? Quantas vezes sacrificamos a tranquilidade tentando controlar a opinião dos outros?

Diante da morte, muitas dessas batalhas parecem pequenas.

Marco Aurélio escreve, em suas Meditações, uma ideia que continua desconfortavelmente atual: viver como se este pudesse ser o último dia é uma maneira de escolher melhor aquilo que merece nossa atenção.

Epicteto, por sua vez, coloca a questão sob a perspectiva do controle.

Para o filósofo, existem coisas que dependem de nós e outras que não dependem. A morte pertence à segunda categoria.

Não podemos negociar com ela. Não podemos convencê-la a chegar mais tarde. Podemos cuidar da nossa saúde, evitar perigos e prolongar a existência, mas não podemos transformar a morte em algo que deixará de acontecer.

E é justamente aí que Epicteto encontra a liberdade.

Sofrer antecipadamente por aquilo que não podemos controlar seria acrescentar uma segunda dor à primeira. Não é a morte, em si, que produz todo o nosso sofrimento, mas também a interpretação que fazemos dela.

O medo da morte pode, paradoxalmente, impedir-nos de viver.

Os três estoicos chegam, por caminhos diferentes, a uma conclusão semelhante. Sêneca nos lembra que o tempo desperdiçado não volta. Marco Aurélio nos lembra que a morte coloca todos os homens diante da mesma condição. Epicteto nos lembra que não somos senhores daquilo que está fora do nosso controle.

Talvez seja justamente aí que o Memento Mori deixe de ser uma lembrança sobre a morte e se transforme em uma filosofia sobre a vida.

A pergunta não é apenas “quando vou morrer?”.

A pergunta mais incômoda talvez seja outra: o que estou fazendo com o tempo que ainda tenho?

Porque existe uma diferença enorme entre simplesmente existir e perceber que estamos vivos.

Podemos passar décadas planejando a vida que teremos algum dia. Podemos adiar conversas, sonhos, reconciliações, projetos e até a própria felicidade. Podemos esperar tanto pelo momento certo que, quando percebemos, descobrimos que o tempo não estava esperando conosco.

Os estoicos não prometiam uma vida sem sofrimento. Prometiam algo mais difícil, uma espécie lucidez diante daquilo que não podemos mudar e responsabilidade diante daquilo que ainda podemos fazer.

Talvez lembrar da morte não seja amar menos a vida.

Talvez seja finalmente levá-la a sério.

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

Alex filósofo

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

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