blog

Ozymandias e a vaidade do poder

O poeta e romancista inglês, Percy Bysshe Shelley, conta a história de um viajante que achou, no deserto, duas pernas de pedra e um rosto quebrado. No pedestal, a inscrição: “Meu nome é Ozymandias, rei dos reis. Contemplai minhas obras e desesperai!”

Em volta, nada. Só areia. Ficou apenas a estátua e a frase  como prova da sua pequenez.

Não importa o quanto você seja foda. O cargo termina. O aplauso desaparece. A juventude passa. O dinheiro muda de mãos. O poder troca de dono. Até aquilo que hoje parece indispensável pode, amanhã, ser apenas uma lembrança perdida em algum canto da areia.

Esse é o retrato mais honesto que a literatura já fez do poder. O rei mandou gravar a arrogância na pedra porque acreditava que a pedra duraria mais que o tempo. O tempo, que não negocia com ninguém, deixou a pedra e levou todo o resto: o império, os súditos, a corte, o medo que ele inspirava.

Os estoicos já avisavam. Marco Aurélio, imperador de verdade, escrevia para si mesmo que a fama póstuma é um sopro, que os que se lembram de nós também morrem, e os que se lembram deles também. Ele governava Roma e se lembrava, todas as manhãs, de que Roma não era dele.

Nietzsche, no outro extremo, desmontava a nossa mania de achar que somos o centro, “uma estrela esperta num canto perdido do universo, inventou o ‘conhecimento’ e, passado um instante, a estrela esfriou e os espertos morreram.”

Mas isso não é desculpa pra desistir. O erro de Ozymandias não foi construir. Foi construir pra si mesmo, pra ser lembrado. Quem planta uma árvore sem esperar sombra faz diferente de quem o fez pela sombra, faz porque vale a pena.

Então brilhe, trabalhe, enfrente. Só não confunda o pedestal com a obra.

O erro do rei não foi construir, foi construir para a eternidade do próprio ego.

o que você está construindo que continuará de pé depois que você se for?


Ozymandias — Percy Bysshe Shelley

Encontrei um viajante de uma terra antiga,
que disse: “Duas enormes pernas de pedra,
sem tronco, permanecem no deserto. Perto delas, na areia,
jaz, parcialmente enterrado, um rosto despedaçado, cuja expressão severa,
o lábio enrugado e o sorriso de frio comando
mostram que seu escultor soube ler bem aquelas paixões,
que ainda sobrevivem, gravadas nestas coisas sem vida,
a mão que as imitou e o coração que as alimentou.

E no pedestal aparecem estas palavras:

‘Meu nome é Ozymandias, rei dos reis.
Contemplai minhas obras, ó poderosos, e desesperai!’

Nada mais restou.

Ao redor da ruína daquele enorme monumento,
despedaçado e nu,
estendem-se, infinitas e desoladas,
as areias solitárias e niveladas do deserto.”

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

Alex filósofo

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

Deixe um comentário