A Teimosia de Sísifo: é possível imaginar-se feliz?
“Quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como.”
Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos
Os deuses gregos condenaram Sísifo a rolar uma pedra até o alto da montanha.
Ela cai.
Ele desce, busca a pedra e recomeça.
Para sempre.
Camus viu nisso o retrato do homem moderno. O despertador, o ônibus lotado, o expediente e a conta no fim do mês, tudo se repete sem promessa de recompensa. A pedra é o peso dos nossos dias, e a montanha é a vida sem garantias de um sentido vindo de fora.
Mas o filósofo não se detém na subida. Ele olha para a descida.
É ali, no intervalo em que a pedra rola e o corpo descansa, que Sísifo enxerga com lucidez. Ele sabe que o esforço não leva a lugar nenhum. Sabe também que ninguém virá libertá-lo.
E desce mesmo assim.
Esse é o gesto que importa. A revolta de Sísifo não é resignação, nem fuga, nem a saída falsa de quem inventa uma esperança para suportar o dia. É continuar de olhos abertos, assumindo o destino como coisa sua.
A pedra continua rolando. O castigo continua de pé. O que muda é que quem o carrega, deixa de ser vítima e passa a ser dono dos próprios passos.
Este seu humilde amante do saber já desceu muitas montanhas assim, à meia-noite, com o fardo esperando lá embaixo.
Camus concluiu que “é preciso imaginar Sísifo feliz”.
