Deus não vota: o pecado de transformar o púlpito em palanque
A Bíblia não é um manual de ciência política, e confundir a vontade de Deus com a agenda de um candidato é um risco para a fé e para a democracia
A relação entre fé e política é marcada por tensões históricas que evidenciam o risco de se instrumentalizar as Escrituras como um manual partidário. Como a Bíblia demonstra no novo testamento, Jesus recusou-se a submeter sua mensagem a facções ao declarar: “Deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21). Embora o apóstolo Paulo oriente que “todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais” (Romanos 13:1), Pedro e os demais apóstolos deixaram claro que “é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (Atos 5:29). Diante disso, vincular a figura divina a uma legenda eleitoral distorce a essência profética da fé, ignorando o alerta do salmista: “Não confiem em príncipes, em meros mortais, de quem não vem a salvação” (Salmo 146:3).
Os critérios éticos propostos pela Bíblia ultrapassam o espectro político tradicional e desafiam visões reducionistas que fragmentam a mensagem do envangelho. Por um lado, a tradição conservadora enfatiza princípios como a retidão no poder, ” Pois a justiça engrandece a nação, mas o pecado é uma vergonha para qualquer povo” (Provérbios 14:34). Por outro lado, a vertente de base social prioriza o cuidado com os necessitados, lembrando que “a religião que Deus, nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades” (Tiago 1:27). As Escrituras também exigem a defesa dos vulneráveis — “Fale por aqueles que não podem falar por si mesmos” (Provérbios 31:8) — e o acolhimento prático demonstrado em Mateus 25:35: “Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer”. O erro de cada campo reside em tratar apenas a sua própria agenda como o Evangelho inteiro.
No cenário de um segundo turno entre correntes opostas, como a representada por Lula e Flávio Bolsonaro, a aplicação desses critérios não gera um veredito automático. Cristãos alinhados à direita enxergam no campo bolsonarista maior afinidade com as pautas de costumes e valores familiares, enquanto eleitores de esquerda identificam no petismo um compromisso superior com o combate à fome e à desigualdade. Contudo, ambos os lados acumulam falhas que a Bíblia condena abertamente, como a mentira — “Não darás falso testemunho contra o teu próximo” (Êxodo 20:16) — e o perigo da idolatria política. O discernimento correto exige, portanto, aplicar o método de Jesus em Mateus 7:16: “Vocês os reconhecerão por seus frutos”, o que demanda analisar a coerência histórica e os resultados práticos, em vez de se guiar por meros slogans.
A resposta mais honesta diante das urnas reconhece a legitimidade de diferentes decisões de consciência, incluindo o voto branco ou nulo, desde que pautadas pela responsabilidade com o bem comum, conforme a instrução de Jeremias 29:7: “Busquem a prosperidade da cidade […] Orem ao Senhor em favor dela”. O caminho mais sólido para o cristão envolve avaliar as propostas de forma criteriosa, ponderar quais valores considera inegociáveis e exercer o sufrágio sem demonizar aqueles que escolheram um caminho diferente. Independentemente do resultado eleitoral, o dever de interceder pelas autoridades permanece contínuo, para que “venhamos a ter uma vida tranquila e pacífica, com toda piedade e dignidade” (1 Timóteo 2:2).
Lembrando que a aprovação divina não pertence a ideologias políticas, mas sim aos corações que praticam a justiça.
