É possível provar a existência de Deus apenas pela razão? Os argumentos de Santo Anselmo e Descartes
O Argumento Ontológico de Santo Anselmo de Cantuária, apresentado no século XI na sua obra Proslogion, é uma célebre demonstração da existência de Deus fundamentada exclusivamente na razão pura. Conheci essa tese marcante ainda nas aulas de filosofia na UFMA, momento em que fui introduzido a essa abordagem a priori, que prescinde de evidências empíricas ou da observação do mundo físico. Toda a sua premissa sustenta-se na análise lógica e na definição conceitual do que Deus representa para o pensamento humano, o que o torna, para mim, um dos argumentos mais sólidos sobre a existência de Deus.
A base da lógica anselmiana parte da definição de Deus como “algo do qual nada maior pode ser pensado”. O filósofo argumenta que mesmo o ateu compreende esse conceito ao ouvi-lo, o que significa que essa entidade suprema existe ao menos na mente humana. Anselmo estabelece então que uma ideia que possui existência real é intrinsecamente superior e mais perfeita do que aquela que habita apenas o intelecto.
A partir desse ponto, o argumento atinge o seu ápice dedutivo por meio de uma redução ao absurdo. Se o ser do qual nada maior pode ser pensado existisse apenas na mente, seria possível conceber um ser ainda maior: um que existisse também na realidade. Como essa possibilidade contradiria a própria definição de Deus como a perfeição máxima, Anselmo concluí que Deus deve necessariamente existir na realidade.
Séculos mais tarde, no período moderno, o filósofo francês René Descartes defendeu uma versão parecida desse mesmo raciocínio em suas Meditações Metafísicas. Descartes argumentou que a existência está para a essência de Deus assim como o fato de a soma de seus ângulos internos ser igual a dois ângulos retos está para a essência de um triângulo. Para ele, conceber um Deus soberanamente perfeito a quem falta a existência seria tão contraditório quanto conceber uma montanha sem um vale, reforçando a solidez lógica que atravessou gerações de pensadores.
