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EDITORIAL | Entre o discurso e a fuga

Quando um representante público prega o enfrentamento institucional e o respeito as leis, mas deixa o país à revelia de uma ordem judicial, a contradição ultrapassa a esfera pessoal e corrói a confiança coletiva

A política não se sustenta apenas em retórica, bandeiras ou declarações de lealdade de palanque. Ela exige responsabilidade diante das leis e coerência entre o que se promete e a maneira como se age. A chegada de Flávio Bolsonaro a Miami, após evadir-se do Brasil contornando uma determinação do Supremo Tribunal Federal, coloca essa premissa no centro do debate nacional.

Em O Leviatã, Thomas Hobbes argumenta que a convivência civil depende de regras comuns e de uma autoridade capaz de preservá-las. Jean-Jacques Rousseau, em Do Contrato Social, discute como a legitimidade do poder nasce dos compromissos que vinculam o indivíduo à sua comunidade. Quando um legislador, o próprio criador das leis, adota uma rota de fuga internacional para esquivar-se de uma ordem judicial, o pacto hobbesiano e o contrato rousseauniano são simultaneamente rompidos.

É nesse ponto que a conduta de Flávio Bolsonaro exige uma análise rigorosa. O senador construiu sua identidade pública sob a insígnia da coragem e do combate ao sistema. Entretanto, ao cruzar a fronteira de forma Coreografada para evitar o espaço aéreo brasileiro, sua narrativa colide com a realidade. Se uma decisão judicial é considerada injusta, o rito democrático impõe a contestação pelos meios legais e o enfrentamento de cabeça erguida, não o distanciamento geográfico de suas consequências.

Essa crítica não significa antecipar culpa criminal ou atropelar o devido processo legal. A responsabilidade jurídica sobre as suspeitas de lavagem de dinheiro deve ser estabelecida pelas autoridades competentes, garantidos o contraditório e a ampla defesa. Contudo, a avaliação política não precisa aguardar o trânsito em julgado para questionar a postura de um homem público diante de fatos já documentados.

O mandato parlamentar não é um salvo-conduto particular, tampouco uma franquia para escolher quais ordens merecem ser cumpridas. É uma função pública, chancelada pela confiança de milhões de eleitores que, agora, assistem ao esvaziamento da liderança que outrora prometera defendê-los. Quem reivindica a liderança de um movimento popular precisa compreender que a cobrança por coerência não desaparece quando a situação se torna inconveniente.

Por fim, a dignidade de uma liderança política não se mede apenas pela disposição de vencer disputas, mas, fundamentalmente, pela capacidade de responder pelos próprios atos perante as leis de sua pátria.

Alex Filósofo Jornalista — DRT 2255/MA
Crítica Cotidiana | Jornalismo que critica e incomoda.

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

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