Flávio tenta decretar por carta uma vitória que as urnas não deram, e Washington evita endossar a ficção
Há momentos em que o silêncio diz mais que o discurso. Na quarta-feira (28), questionado sobre a carta em que Flávio Bolsonaro se autodeclarou “presidente eleito” do Brasil, Donald Trump preferiu não comentar. Disse que não vai se envolver.
Para quem apostou todas as fichas no padrinho americano, foi um balde de água fria. Flávio perdeu por 4,4 milhões de votos, 51,79% a 48,21% segundo o TSE, e tentou transformar a derrota em coroação por conta própria. Nem o aliado mais barulhento da direita mundial quis assinar embaixo do papel.
Sejamos honestos, o silêncio de Trump não é inocência. Na segunda-feira, ele já havia sugerido, sem apresentar provas, que a eleição brasileira foi fraudada, a mesma narrativa que o clã Bolsonaro tenta vender. Agora diz que Flávio e a família foram tratados de forma “muito injusta” e que os EUA autorizaram sua entrada. Trump não endossa o golpe de papel, mas também não apaga o incêndio que ajudou a acender.
Enquanto isso, ao menos 48 líderes mundiais já haviam parabenizado Lula, inclusive presidentes de direita da América Latina. E o próprio Flávio recuou: decidiu não pedir mais a anulação da eleição, depois de ter dito que não reconheceria o resultado.
A lição é simples e vale para além de Miami: quem decide eleição no Brasil é o eleitor, e quem proclama o resultado é a Justiça Eleitoral. Nenhuma carta, nenhum telefonema de Washington muda isso.

