Dados sobre atendimentos em saúde mental reforçam o alerta do Janeiro Branco
Os dados recentes sobre o crescimento dos atendimentos em saúde mental no SUS entre crianças e adolescentes não podem ser lidos apenas como números frios. Levantamentos oficiais mostram que os casos de ansiedade e depressão nessa faixa etária aumentaram de forma expressiva na última década, especialmente entre jovens de 10 a 14 anos. Em pleno Janeiro Branco, mês dedicado à conscientização sobre saúde mental, o cenário revela algo maior que um problema individual. A infância, antes pensada como tempo de proteção e descoberta, passou a conviver com pressões que pertenciam ao mundo adulto. A modernidade líquida, como observa o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman, transformou a instabilidade em regra. até a infância perdeu o direito à solidez.
A filósofa Hannah Arendt lembrava que cada geração tem a responsabilidade de apresentar o mundo às crianças sem esmagá-las com ele. Hoje, parece ocorrer o contrário. A infância é lançada cedo demais em um ambiente marcado por cobrança constante, exposição sem limites e violências emocionais sutis, muitas vezes naturalizadas. A ansiedade infantil não nasce do acaso. Ela é produzida por rotinas aceleradas, por relações frágeis e por uma cultura que exige desempenho mesmo de quem ainda está aprendendo a existir.
Tratar esse sofrimento como “fase”, “drama” ou “frescura” é uma forma socialmente aceita de evitar o enfrentamento do problema. A psicologia já reconhece que transtornos emocionais na infância comprometem o desenvolvimento afetivo, escolar e social. Quando uma criança adoece psiquicamente, ela não está encenando um conflito, está expressando um pedido de escuta. Minimizar esse sinal é permitir que o sofrimento se torne permanente, quase um destino imposto pela indiferença adulta.
O Janeiro Branco deveria ser menos um calendário simbólico e mais um convite à revisão de valores. Cuidar da saúde mental das crianças não se resume a ampliar consultas em unidades de saúde, embora isso seja urgente, mas passa por repensar o ritmo da vida, a qualidade das relações e a forma como se exerce a autoridade. Uma sociedade que se acostuma ao adoecimento da infância revela, no fundo, que já não sabe mais proteger quem ainda está em formação. Talvez o desafio do nosso tempo seja simples de enunciar e difícil de cumprir, e se resume a garantir que crescer não signifique adoecer.
