“Aos amigos, tudo; aos inimigos, nada.”
A frase tradicionalmente atribuída a Getúlio Vargas, é um velho jargão da política que voltou a circular quando o assunto passou a ser a condução da cultura. Fora do camarim do poder, artistas e produtores encontraram portas fechadas e um palco sem luz. Dentro do grande teatro institucional, prometeu-se uma sinfonia, mas o que se ouviu foi um silêncio sem jeito como um sorriso amarelo de cigarro. O resultado apareceu rápido, frustração para quem sustenta a cena com trabalho, suor e expectativa, euforias discretas para quem tava de crachá no dia do cadastramento para receber os louros.
O discurso do eterno candidato a carimbador, ops vereador, falava em tambores, vozes e identidade popular, trazendo à tona uma memória de chão batido da época em que estava do outro lado do balcão, anterior às luzes do palco do cargo que caiu em seu colo. A prática seguiu outro compasso, regência distante, olhos voltados para a plateia errada como se estivesse esquecido de onde veio. A festa, tratada como adereço, perdeu o chão da rua. O som das comunidades antes “Vivas” virou eco, e aquilo que sempre nasceu coletivo passou a depender do improviso, como se a luz do palco existisse, mas não alcançasse todos os atores.

Num local que vive de promessas, o povo passou o ano inteiro ensaiando, como em Retalhos de Cetim, do cantor e compositor Benito di Paula, acreditando que ter uma história pela cultura teria algum peso na balança. Quando chegou a hora, a resposta foi o cancelamento seco e o recuo sem palavra, como quem apaga a luz depois do ensaio. A cultura, que poderia ser trabalho, renda e voz política de quem sustenta a cidade, foi empurrada para o papel de adereço descartável. E a multidão, pronta para cantar, aprendeu outra vez a lição amarga da vida pública: na festa, quem constrói raramente é quem decide se ela acontece.
E a decepção fica como uma curuba que incomoda e que ainda não mostrou pra que veio, sendo uma das maiores decepções de quem o escolheu e para seus três mosqueteiros que já não aguentam mais o chefim…

