A história mostra, vezes demais, que há quem confunda patrocínio com autoridade mesmo sem ter poder. Não por força real, mas por insegurança profunda. Quem manda assim não governa, administra presenças como quem controla objetos num espaço que imagina ser seu
Paulo Freire nos deixou uma frase que atravessa décadas sem perder força nem o sentido, “o sonho do oprimido é se tornar o opressor.” Não é só uma constatação amarga sobre a sociedade, é quase um espelho desconfortável. Em vez de imaginar um mundo mais justo, muita gente cresce sonhando apenas em trocar de lugar com o capataz, sair de baixo para, enfim, mandar, humilhar, decidir quem entra e quem fica de fora de eventos ou mesmo do palácio do poder.
Na política, essa lógica aparece com uma clareza assustadora. Pessoas que passaram a vida inteira criticando privilégios, metendo o narigão em todo problema e combatendo o abuso de poder, de repente mudam completamente ao sentir o cheiro de um cargo, mesmo que seja apenas passageiro e fugaz. De repente, o discurso se dissolve, a empatia some e nasce alguém que age como se tivesse sido ungido, como se agora estivesse acima do bem e do mal.
É curioso como o poder, mesmo em doses homeopáticas, revela tanto. Gente traiçoeira ao ponto de dar rasteiras em seus mecenas , passa a tratar os outros com desprezo, esquece de onde veio e começa a reproduzir exatamente as práticas que ela e seu cônjuge diziam combater. O problema nunca foi o sistema, era só a falta de acesso a ele. Quando entra, não pensa em mudar nada, apenas em se beneficiar e boicotar aqueles que não rezam sua cartilha roxa ( em homenagem a nossa eterna dona roxa, Núbia).
Hannah Arendt talvez nos ajude a fechar esse nosso pensamento. Ela dizia que a banalidade do mal não nasce de monstros, mas de pessoas comuns que passam a agir segundo o papel que o poder lhes oferece. A crítica, então, não é apenas aos que mandam, mas ao sonho dos pequenos de mandar. Enquanto esse for o horizonte, a política seguirá sendo menos espaço de transformação e mais palco de vaidades mal resolvidas.
Como diria Mano Brown “Paulo acorda…”
