O que deveria ser apenas mais uma sessão da Câmara virou um escândalo político logo de cara. Convocada às pressas, a chamada sessão extraordinária acabou usada como atalho para votar temas pesados, aumento de salários, iluminação pública e impostos. Tudo de uma vez. O resultado foi imediato: desconfiança, revolta e a sensação de que tentaram passar a boiada na correria, longe do debate que decisões desse tamanho exigem.
Dentro do plenário, o vereador Márcio Araújo resolveu dizer em voz alta o que já se sussurrava nos bastidores e nas conversas de rua. Segundo ele, a Câmara cometeu um erro grave ao usar uma sessão extraordinária para votar matérias que mexem diretamente no bolso da população. Não é detalhe técnico, é violação direta do Regimento Interno. O artigo 76 é claro ao limitar sessões extraordinárias a casos realmente urgentes e específicos, que sejam de interesse da população, não a projetos que poderiam e deveriam tramitar em sessão ordinária. Márcio foi além e exigiu que o erro fosse registrado em ata, justamente para não virar “mal entendido” lá na frente.
Traduzindo para quem não é do juridiquês: sessão extraordinária não é carta branca. Ela existe para situações excepcionais, daquelas que não podem esperar. Aumentar imposto, criar taxa e dar um upgrade em salário de Prefeito não é emergência, é decisão séria, que pede debate público, tempo e transparência. Quando isso é empurrado numa sessão fora do calendário, o cheiro de manobra fica difícil de ignorar.
O atropelo ao regimento fica ainda mais grave quando se observa o artigo 24, que define claramente quando o presidente da Câmara pode ou não votar. Qualquer distorção nessa condução contamina todo o processo. Regimento Interno não é sugestão, é a lei da casa. Desrespeitar essas regras é como tentar construir uma casa começando pelo telhado. Pode até ficar de pé por um tempo, mas a queda é questão de hora.
O pedido para registrar tudo em ata foi um movimento estratégico. Ata é documento oficial, não se apaga depois. É o que juiz, promotor e órgãos de controle vão analisar se o caso for parar fora da Câmara. E ali pode estar a prova de que a sessão já nasceu viciada. Se isso se confirmar, tudo o que foi aprovado corre sério risco de cair.
No fim, a sessão extraordinária cumpriu um papel que ninguém queria assumir publicamente. Em vez de resolver problemas, criou um maior. Gerou insegurança jurídica, levantou suspeitas e acendeu o alerta na população. E em cidade pequena, como todo mundo sabe, quando se começa errado, o preço do conserto quase sempre é pago pelo povo.
