Crítica de Quinta| Apegados ao poder, vereadores cedem o cargo, mas não a chave
Há um velho ditado que diz que é na hora da despedida que se conhece o verdadeiro tamanho do apego
Há poucos dias, este seu humilde blogueiro revelou, com exclusividade, que dez vereadores de Paço do Lumiar deixariam temporariamente seus mandatos para abrir espaço aos suplentes. Tudo aconteceu como previsto. A movimentação fazia parte de um acordo político antigo, costurado ainda antes das eleições e articulado pelo próprio mandatário. Todos sabiam. Todos concordaram. Ou, pelo menos, era o que parecia.
No dia da transmissão dos cargos, não faltaram discursos emocionados. Gratidão, compromisso com o povo, novos desafios, portas abertas. A cerimônia foi bonita. Faltou apenas combinar com duas pessoas.
Porque, passados os aplausos, dois dos dez resolveram descobrir que talvez não quisessem sair tanto assim.
Um deles, conhecido por seu espírito de Dora aventureira, resolveu deixar os assessores ocupando o gabinete, como quem finca a bandeira do país antes da chegada do novo morador.
O outro preferiu ser ainda mais radical. Levou a chave embora.
É difícil encontrar uma metáfora melhor. O mandato foi entregue. O discurso foi feito. Mas a chave… continuou no bolso.
A cena lembra aquelas crianças que, depois de perder a brincadeira, pegam a bola e vão embora para ninguém mais jogar. A diferença é que, neste caso, a bola é um gabinete público, pago pelo contribuinte, e a brincadeira chama-se política.
Os suplentes continuam esperando. E as chaves seguem desaparecidas.
Se é tão difícil entregar um gabinete, imagine entregar o poder.
