Papo de Filósofo: entre quem fomos e quem podemos ser
Mudar é uma das coisas mais difíceis que o ser humano pode fazer, porque toda mudança exige uma despedida. Às vezes, não precisamos apenas caminhar em direção ao novo; precisamos também encontrar coragem para abandonar aquilo que nos mantinha presos ao passado. Há hábitos, lugares, pessoas e até versões de nós mesmos que um dia fizeram sentido, mas que deixam de caber na pessoa que estamos nos tornando. Permanecer preso ao que já terminou pode parecer segurança, mas muitas vezes é apenas medo disfarçado.
Heráclito, filósofo grego da Antiguidade, dizia que tudo está em movimento. Para ele, não entramos duas vezes no mesmo rio, porque nem o rio nem nós somos exatamente os mesmos. A vida funciona assim. Enquanto o mundo muda ao nosso redor, nós também mudamos. O problema começa quando tentamos permanecer iguais em uma realidade que já não é a mesma. Aceitar a mudança é compreender que algumas coisas precisam terminar para que outras possam começar.
Nietzsche levou essa ideia ainda mais longe ao defender a necessidade de superar a nós mesmos. Para ele, viver não deveria significar apenas repetir aquilo que já conhecemos, mas ter coragem de nos transformar. Isso pode ser doloroso, porque crescer muitas vezes significa abandonar uma identidade antiga. É como deixar para trás uma casa onde moramos durante muito tempo. Mesmo sabendo que precisamos partir, ainda sentimos saudade dos cômodos, das lembranças e daquilo que fomos ali.
Sartre, por sua vez, nos lembra que somos responsáveis pelas escolhas que fazemos. Não somos apenas aquilo que aconteceu conosco; também somos aquilo que decidimos fazer com o que aconteceu. Isso significa que o passado pode explicar algumas das nossas feridas, mas não precisa determinar o nosso futuro. Em algum momento, precisamos parar de perguntar quem fomos e começar a perguntar quem queremos ser.
Talvez mudar seja justamente isso, aprender a perder algumas coisas sem perder a si mesmo. Deixar para trás não significa apagar o passado, fingir que ele nunca existiu ou desprezar aquilo que vivemos. Significa reconhecer que certas experiências cumpriram seu papel e agora podem ser deixadas no lugar onde pertencem. No passado.
Heráclito nos ensina que tudo flui, Nietzsche nos provoca a superar quem fomos e Sartre nos lembra que nossas escolhas ajudam a construir quem seremos. No fim, mudar é aceitar que algumas portas precisam ser fechadas não porque a nossa história pessoal acabou, mas porque existe uma outra página esperando para ser escrita.
