E se a dor não for castigo divino, mas apenas parte da existência?
“Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!” — Friedrich Nietzsche (A Gaia Ciência)
Você está sofrendo agora. E, em algum canto da sua cabeça, uma voz sussurra que isso é castigo. Que existe uma conta sendo cobrada. Que Deus, ou o destino, ou o universo, decidiu fazer justiça através da dor.
Este aspirante a filósofo humildemente discorda.
O sofrimento não pede licença. Não consulta o histórico de quem o recebe. Ele simplesmente acontece, como a chuva acontece sobre o justo e sobre o injusto, sem preferência, sem contabilidade moral por trás.
A ideia de castigo divino é sedutora justamente porque organiza o caos. Se existe uma causa, existe controle. Se eu errei, basta não errar de novo, e a dor vai embora. Mas a vida não obedece essa matemática de quinta série. Ela é indiferente, e isso, paradoxalmente, pode ser um alívio.
Porque se o sofrimento não é punição, ele também não precisa ser vergonha.
Não é sobre merecer ou não merecer. É sobre estar vivo, e a vida inclui isso, o peso, a queda, o dia em que tudo pesa mais do que deveria. Amar essa vida, como diria Nietzsche, não é amar apenas as partes boas. É dizer sim ao inteiro, inclusive à dor que não pediu permissão para chegar.
Quem está sofrendo agora não está sendo cobrado por nada. Está, simplesmente, vivendo a parte da existência que ninguém escolhe, mas que todos, cedo ou tarde, atravessam.
E talvez a pergunta certa não seja “o que eu fiz para merecer isso”. Talvez seja apenas uma reflexão mais estóica: “o que eu faço agora, com o que sinto”.
