O pior debate de todos os tempos: ninguém venceu, mas o eleitor perdeu
“Para quem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento é favorável.” – Sêneca, Cartas a Lucílio, 71
Na noite de domingo, a Band colocou Lula e Flávio Bolsonaro frente a frente, a uma semana do segundo turno. O encontro, aguardado como uma oportunidade para os candidatos apresentarem propostas e confrontarem suas visões de país, acabou dominado por acusações, troca de ataques e referências a escândalos.
Ao fim dos três blocos, a pergunta que ficou não era quem havia vencido, mas o que o eleitor efetivamente ganhou com o confronto.
Segundo o que foi dito no palco, e não cabe a este humilde escriba atestar nada, um acusou o outro de ligação com o caso Lulinha. O outro devolveu com o caso “Dark Horse”. Citaram familiares, empresária e banqueiro. Lula chegou a se esquivar do adversário, chamando-o de “miliciano”. Nas considerações finais, a plateia também entrou na briga.
Segurança, economia, saúde, maioridade penal, relação com os Estados Unidos. Os temas estavam na pauta. Chegaram ao público em fiapos, soterrados pelas acusações.
Renan Santos, terceiro colocado no primeiro turno, resumiu o clima. Quando um era acusado, respondia com outro escândalo. E nenhum dos dois conseguiu se defender. Ele classificou o confronto como o pior debate desde 1989.
Já os comentaristas se dividiram. Houve quem desse a vantagem a Flávio pela calma, apesar das chances desperdiçadas. Vantagem de quê, exatamente?
Porque o eleitor, esse não ganhou nada.
Não ganhou uma proposta para o custo de vida. Não ganhou um plano para a segurança. Ganhou duas defesas que consistem em apontar o dedo para o outro. Cada um tem razão ao dizer que o adversário está enrolado. Nenhum prova que ele próprio não está.
E o relógio corre. A pesquisa PoderData/Aya aponta empate em 50% dos votos válidos. O país está dividido ao meio, e os dois lados tiveram um debate para mostrar por que seriam melhores. Escolheram mostrar por que o outro seria pior.
Resta uma pergunta, que este blog deixa em suspenso: se a eleição se decide pelo menos pior, quem perde mais, o candidato derrotado ou o eleitor que chegou ao fim da noite sem saber para onde está votando?
Que ninguém venha, nesta segunda-feira, dizer que alguém venceu.
