Amor de Passagem
“O amor imaturo diz: ‘Amo-te porque preciso de ti.’ O amor maduro diz: ‘Preciso de ti porque te amo.”
Erich Fromm, A Arte de Amar
Aristóteles dizia que só conhecemos alguém depois de comermos juntos o proverbial sal.
Leva tempo. Leva convivência. Leva repetição.
Nosso tempo aboliu o sal.
Zygmunt Bauman percebeu, ainda em 2003, que o afeto moderno se reorganizou como consumo. Trocamos a relação pela conexão virtual, na internet , o vínculo que se liga sem esforço e, principalmente, se desliga sem custo. Quem se conecta mantém a saída à vista. Quem se relaciona aceita perdê-la.
Aqui está o paradoxo que Bauman deixou exposto. Desejamos a segurança do laço e a liberdade de quem nunca se prendeu. Queremos os dois ao mesmo tempo, e nenhum amor sobrevive a essa exigência.
Os otimistas respondem que o amor acaba, mas a capacidade de amar se renova. Há verdade nisso. Ninguém morre de um término.
Por isso a distinção de Fromm importa. O amor imaturo parte da carência, amo porque preciso. O amor maduro faz o caminho inverso e transforma a necessidade em consequência da escolha. O primeiro é líquido por natureza, porque, saciada a carência, evapora. O segundo exige uma decisão que resiste ao humor do dia.
A liquidez, portanto, não é só cenário. É argumento. Cada saída fácil ensina que a profundidade é dispensável.
Este humilde escriba não prega o sofrimento como prova de amor. Prega apenas que o fundo de um rio só se conhece por quem ficou.
E fica a pergunta que nenhum aplicativo responde:
Você fica por amor ou por falta de coragem para partir?
