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Cristal quebrado não cola jamais: algumas versões de nós precisam morrer

Dizer “não vou me adaptar” parece, à primeira vista, um grito de teimosia. Uma recusa em aceitar o mundo como ele é. Mas, no fundo, essa frase esconde uma verdade profunda sobre quem somos. Nós não mudamos apenas porque o mundo nos força. Mudamos porque o tempo flui. E, nessa correnteza, o “eu” de ontem já não existe mais.

Um antigo filósofo pré-sócratico chamado Heráclito dizia que um homem não toma banho duas vezes no mesmo rio. Na segunda vez, as águas são outras. O homem também já mudou. Com a nossa vida acontece o mesmo. A cada noite que dormimos e a cada manhã que acordamos, deixamos pedaços de nós para trás.

Não ser o mesmo de ontem não é uma escolha. É a nossa própria natureza.

E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais difícil de crescer. Em algum momento, percebemos que não somos mais quem imaginávamos ser. Algumas certezas perderam força. Algumas amizades ficaram pelo caminho. Alguns sonhos deixaram de fazer sentido. E até aquilo que um dia juramos nunca fazer, talvez tenhamos feito.

Eu também me perdi pelo caminho.

Em algum ponto da correnteza, deixei para trás versões de mim que acreditavam saber exatamente para onde estavam indo. Houve momentos em que tentei resistir ao curso do rio, como se fosse possível voltar à margem e recuperar aquilo que já havia passado.

Mas o rio não volta.

E talvez a vida também não peça que voltemos. Ela apenas continua.

Hoje, olhando para trás, percebo que algumas das minhas perdas foram também transformações. Nem todo desvio foi fracasso. Nem toda mudança foi fraqueza. Às vezes, eu apenas estava me tornando alguém que ainda não conseguia reconhecer.

Heráclito talvez tivesse razão. O rio muda, mas nós também.

Por isso, talvez a pergunta não seja “como faço para continuar sendo quem eu era?”. Talvez seja outra, muito mais difícil: “quem estou me tornando enquanto o rio corre?”.

Porque o perigo não está em mudar.

O perigo está em passar a vida inteira tentando voltar para uma versão de nós que já morreu.

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

Alex filósofo

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

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