Duarte, Fausto e Maquiavel: qual é o preço do poder?
No fim, não são apenas as vitórias que definem um personagem público, mas também as escolhas feitas para alcançá-las
O velho ditado de que “os fins justificam os meios” é frequentemente atribuído a Maquiavel, embora nunca tenha sido escrito exatamente dessa forma pelo pensador florentino. Em O Príncipe, porém, ele apresenta uma reflexão que atravessou séculos, a de que nas ações dos governantes, muitas vezes, o resultado acaba sendo o principal critério de julgamento desconsiderando-se o que se fez para conquistar.
A pergunta aqui não é se Maquiavel estava certo ou errado. Mas até onde um homem público pode avançar na busca por um objetivo sem que suas escolhas passem a ser interpretadas pelo eleitor como uma mudança de identidade política.
É nesse ponto que surge a metáfora de Fausto, personagem clássico da literatura que faz um pacto em busca de conhecimento, poder e realização de seus desejos. A história não fala apenas sobre ambição, mas sobre as consequências das escolhas feitas no caminho até aquilo que se deseja alcançar.
A recente aproximação política entre Duarte Júnior e o grupo liderado por Josimar de Maranhãozinho, publicada em matéria pelo Jornalista Glaucio Ericeira (Josimar articula e garante partido para Duarte concorrer ao Senado), nos inseriu em um dilema inevitável dentro da política, que é o limite entre estratégia eleitoral e a coerência do discurso.
Na política, alianças fazem parte da democracia. A política é construída por movimentos, negociações e mudanças de cenário. Mas também faz parte da democracia que o eleitor observe essas movimentações e questione como elas se encaixam na trajetória e nos discursos construídos ao longo do tempo.
A questão não é afirmar que uma aliança representa, por si só, abandono de valores ou mudança de princípios. A questão é entender como essas escolhas são recebidas por aqueles que acompanham a vida pública e depositam confiança em determinados projetos políticos.
Talvez a metáfora não seja realmente sobre vender a alma ao diabo. Talvez seja sobre o antigo dilema de Fausto: qual é o preço de uma conquista quando o caminho até ela passa a ser questionado? Afinal, toda ambição tem um custo. A questão é: a que preço?
Na política, esse preço nem sempre é imediato. Ele pode aparecer na forma de dúvidas, comparações, críticas ou na necessidade de reconstruir narrativas diante do eleitor.
No fim, o julgamento definitivo não pertence aos adversários nem aos aliados. Pertence ao cidadão que acompanha, compara trajetórias e decide se continua enxergando no político de hoje o mesmo personagem que conheceu ontem.
