O que se perde quando a escola passa a imitar instituições que não foram feitas para ensinar?
A escola foi criada para formar sujeitos capazes de compreender regras, não apenas de obedecê-las. Quando práticas de quartel entram no espaço escolar, altera-se a função da instituição. O que era pensado como ambiente de elaboração do conflito passa a operar como mecanismo de correção de conduta. O estudante deixa de ser reconhecido como alguém em processo de formação e passa a ser tratado como objeto de controle a ser doutrinado.
A pedagogia trabalha os limites por meio da palavra, do vínculo e da construção do sentido das normas. Paulo Freire lembrava que a autoridade educativa só é legítima quando se sustenta no diálogo e na compreensão, não no medo. Quando esse trabalho é substituído por punições físicas ou exposições públicas, muda também o tipo de relação que se estabelece. Já não se forma para entender, forma-se para se submeter. A autoridade vai deixando de se apoiar no saber e passa a depender da capacidade de constranger.
Essa “despedagogização” da escola carrega um risco profundo. Forma jovens treinados para obedecer, mas despreparados para pensar. Cria ambientes rígidos por fora e frágeis por dentro, onde a disciplina vira fim em si mesma e o conhecimento vira apenas mais um detalhe burocrático imposto pelo MEC. No longo prazo, o preço é alto, cidadãos menos críticos, menos participativos, mais acostumados a aceitar ordens do que a compreender regras.
Educação não é adestramento. Disciplina sem pedagogia é só controle. E controle não educa, apenas silencia. A escola existe para formar pessoas, não tropas. Quando se esquece disso, o que está em jogo não é apenas o futuro de algumas crianças que são obrigadas a se matricular nesse modelo, já que é o oferecido pelos governos e prefeituras, é o próprio projeto de sociedade que queremos viver.
