Em São Luís, ninguém precisa de linguagem difícil para formar opinião. Na feira, no ônibus e na rua, o povo junta os fatos do jeito mais simples possível: valores gigantes, nomes conhecidos, exonerações e silêncio. Quando a sequência se repete, a conta não fecha — e a confiança vai embora.
Tudo começa com a cena que chocou a cidade: um carro abandonado com R$ 1.109.350,00 em dinheiro vivo, no Renascença. Mais de um milhão em cédulas, largado como se fosse coisa qualquer. A polícia investiga, quebra sigilos, identifica de onde o dinheiro saiu e tenta saber quem mandou sacar e para onde iria. No entorno aparecem Antônio Braide, além de Carlos Augusto Diniz da Costa e Guilherme Ferreira Teixeira. Depois da repercussão, exonerações. Explicação completa? Não veio. Na feira, o comentário é direto: ninguém anda com esse dinheiro todo à toa.
Enquanto isso, os contratos não param. Um chama atenção pelo tamanho: R$ 12.097.350,00 para serviços de tecnologia da informação, firmado com empresa que já teve histórico problemático em outro estado. No ônibus lotado, a pergunta corre solta: se tem tanta empresa correta, por que logo essa? Para quem passa o mês contando moeda, esse tipo de escolha soa como tapa na cara.
Aí vem o Carnaval. R$ 7 milhões previstos em um termo de colaboração que acabou anulado depois de questionamentos. Secretários caíram, a parceria caiu, mas as respostas não vieram inteiras. Quem decide? Quem fiscaliza? Quem movimenta o dinheiro da festa? Na rua, a leitura é crua: quando envolve palco e milhões, sempre dá problema.
A desconfiança cresceu tanto que virou assunto formal. CPI, Câmara falando em contratos sem licitação, emergência atrás de emergência e transparência pela metade. Parte das denúncias foi arquivada, mas isso não apaga o rastro: suspeita sobre suspeita, quase sempre com cifras altas no meio. No mercadinho, ninguém discute despacho; discute repetição de história estranha.
O clima pesou ainda mais quando um empresário foi às redes acusar o prefeito e o secretário de Obras de corrupção e extorsão. A postagem foi apagada depois. A dúvida, não. Na calçada, a frase é curta e grossa: ninguém se expõe desse jeito de graça.
Junte tudo: dinheiro vivo em caso mal explicado, contratos de milhões, festa cara, investigações, CPI, exonerações e nota curta ou silêncio. Agora compare com o dia a dia real: ônibus lotado, posto cheio, rua esburacada, escola com problema. É esse contraste que revolta. É assim que o povo decide.
Pré-campanha não se ganha com discurso ensaiado. Se ganha (ou se perde) no sentimento. E o sentimento que corre na feira, no ônibus e na rua hoje é de cansaço e desconfiança. Quando a conversa vira rotina, a máscara cai. E quando cai, não tem marketing, festa ou obra maquiada que segure.
