“A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude.”
— François de La Rochefoucauld
Em 186 a.C., o Senado romano tomou uma decisão drástica ao reprimir os Bacanais, o célebre culto a Baco que o historiador Tito Lívio descrevia como uma simbiose perigosa de êxtase, segredo e vício. Engana-se quem pensa que Roma temia o vinho ou a luxúria em si. O medo da República era essencialmente político, pois temia-se que o prazer clandestino, cultivado longe dos olhos das instituições, se convertesse em um poder paralelo. Mais de dois milênios depois, o Brasil assiste à repetição dessa mesmíssima tensão, mas sob uma roupagem cínica. O palco atual é ocupado por um lema que se vende como o exato oposto do dionísiaco, “Deus, pátria e família”, no qual se apela à ordem apolínea, à rigidez do pai de família e à moral exibida em palanque, mas só em palanque.
É por isso que o confronto entre o discurso e os fatos não é mera provocação retórica, mas sim o cerne de uma crise ética profunda. Quando a narrativa oficial prega a virtude e a prática descrita pela imprensa evoca a orgia, o problema central deixa de ser o pecado individual e passa a ser a hipocrisia coletiva, ou seja, a distância abissal entre a palavra pública e o ato privado.
Os relatos trazidos à luz pelo jornalismo investigativo desenham esse contraste sem qualquer necessidade de adornos. Segundo reportagem da revista piauí, em julho de 2020, quando o país chorava milhares de mortos pela Covid-19, o senador Flávio Bolsonaro teria participado de um passeio de lancha no Lago Paranoá. A bordo, além de garotas de programa, estavam executivos da Precisa Medicamentos, empresa envolvida nas polêmicas negociações da vacina Covaxin. Naquela ocasião, o parlamentar teria sido agraciado com um relógio Rolex de presente. Em outra frente, o portal PlatôBR revelou encontros semelhantes com profissionais do sexo, financiados por vias questionáveis, e a compra de um segundo Rolex, avaliado em R$ 305 mil, por um advogado aliado em 2022. Há, inclusive, o registro de mensagens em que o senador admite ter feito escolhas erradas e promete não falhar mais com a própria família.
Embora se trate de episódios distintos e ainda sem o veredito definitivo da Justiça, o foco do interesse público não deve ser o voyeurismo da alcova. Para o cidadão e para a República, o que importa não é a cama, mas sim descobrir quem pagou a conta e o que foi exigido em troca do banquete.
Nesse cenário de degradação, a figura de Calígula emerge não como um espelho perfeito, mas como uma solene advertência histórica. Suetônio e outros cronistas antigos narram que o imperador pretendia nomear seu próprio cavalo como cônsul. Mesmo que a história guarde traços de propaganda de seus inimigos, a lição política atravessou os séculos intacta, pois o verdadeiro horror do poder absoluto não reside nos excessos do soberano, mas na subserviência e na deterioração da corte que se formata ao redor dele. Quando o acesso às decisões do Estado passa a ser servido em jantares privados, entre taças de vinho, cortesias e anfitriões com interesses comerciais, a República deixa de existir, o espaço público é privatizado e vira balcão de negócios.
Este é, infelizmente, o retrato incômodo que as investigações sugerem sobre os bastidores de Brasília. Trata-se de uma mansão no Lago Sul frequentada por quem precisava destravar pendências na máquina pública, lobistas da saúde em lanchas de luxo e, meses depois, uma agenda oficial no BNDES aberta pelo próprio senador para intermediar os interesses desses mesmos empresários. Para compreender a gravidade desse ecossistema, não precisamos da excentricidade de Calígula. Basta a lucidez republicana de compreender uma regra básica do poder, a de que quem aceita a benesse do interessado abre mão da própria independência e torna-se, inevitavelmente, seu devedor.

