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O pêndulo da existência

“A vida oscila, como um pêndulo, para um lado e para o outro, entre a dor e o tédio.”
— Arthur Schopenhauer

Talvez uma das maiores ilusões humanas seja acreditar que a vida boa está sempre um pouco mais adiante.

Observe uma criança no primário.

Ela ainda não sabe, mas já aprendeu a esperar.

Espera crescer. Espera chegar ao ensino fundamental. Imagina que ali será diferente. Terá mais liberdade, mais autonomia, será tratada como gente grande.

Então chega ao ensino fundamental.

E descobre que ainda não.

Agora a vida boa estará no ensino médio.

No ensino médio, surge uma nova promessa. O vestibular. A faculdade. A possibilidade de finalmente escolher o que fazer da própria vida.

E então chega a faculdade.

Mas a faculdade também não é a vida que ela imaginava.

É preciso conseguir um estágio.

Depois do estágio, conseguir um emprego.

Depois do primeiro emprego, conseguir um emprego melhor.

Depois, ganhar mais.

Depois, comprar uma casa.

Depois, comprar um carro.

Depois, casar.

Depois, ter filhos.

Depois, garantir que os filhos tenham uma vida melhor.

Depois, crescer na profissão.

Depois, conquistar estabilidade.

Depois, juntar dinheiro.

Depois, aposentar.

E talvez aí, finalmente, descansar.

Finalmente viver.

Mas quando chega a aposentadoria, talvez o corpo já não tenha a mesma disposição, os amigos já não estejam todos por perto, os pais tenham partido, os filhos tenham seguido suas próprias vidas e o tempo, aquele tempo que parecia infinito na juventude, tenha se tornado a coisa mais escassa de todas.

Então surge uma nova promessa.

Agora a vida boa talvez esteja nas viagens.

Na tranquilidade.

Nos netos.

Na saúde.

Na espiritualidade.

Naquilo que virá depois.

E, quando a morte finalmente se aproxima, ainda pode aparecer a última promessa.

No seu leito de morte talvez um religioso pode dizer que esta vida é apenas uma passagem. Que a verdadeira vida começa depois. Que o sofrimento será recompensado, que haverá uma existência definitiva, perfeita, eterna.

E assim o ser humano pode atravessar oito, nove, dez décadas esperando a vida começar.

Perceba a brutalidade disso.

Primário. Depois.
Fundamental. Depois.
Ensino médio. Depois.
Faculdade. Depois.
Estágio. Depois.
Emprego. Depois.
Promoção. Depois.
Dinheiro. Depois.
Casa. Depois.
Família. Depois.
Aposentadoria. Depois.
Morte. Depois.

Sempre depois.

Talvez seja esse o pêndulo de Schopenhauer em sua forma mais cotidiana.

A vida nunca está exatamente onde estamos.

Ela está sempre alguns passos à frente.

E nós caminhamos atrás dela.

O mais estranho é que, em cada etapa, acreditamos sinceramente na promessa. A criança realmente acredita que será mais feliz quando crescer. O adolescente acredita que a liberdade virá com a faculdade. O jovem acredita que o emprego resolverá suas angústias. O adulto acredita que o dinheiro trará tranquilidade. O trabalhador acredita que a aposentadoria devolverá o tempo perdido.

E, quando chega lá, descobre que o lugar para onde correu não era o paraíso.

Era apenas mais uma estação.

É aí que Schopenhauer se torna perturbador.

O problema talvez não seja simplesmente não conseguirmos aquilo que queremos. O problema é que, quando conseguimos, a satisfação rapidamente perde sua força. E então desejamos outra coisa.

A vontade não repousa.

Ela apenas troca de objeto.

Queremos porque não temos. Sofremos pela falta. Conseguimos. O desejo se cala por um instante. Depois vem o vazio, o tédio, a sensação de que aquilo não era tudo.

E então queremos novamente.

O pêndulo se move.

Da dor para o tédio.

Do tédio para o desejo.

Do desejo novamente para a dor.

Talvez por isso a humanidade tenha inventado tantas formas de dizer “depois”.

Depois eu vivo.

Depois eu descanso.

Depois eu viajo.

Depois eu tenho tempo.

Depois eu cuido de mim.

Depois eu leio.

Depois eu penso.

Depois eu sou feliz.

O problema é que o “depois” é uma palavra extremamente perigosa.

Porque ela parece indicar futuro, mas muitas vezes significa apenas adiamento.

Adiar a vida é uma coisa curiosa. No início, parece prudência. Estamos estudando para o futuro, trabalhando para o futuro, economizando para o futuro, construindo para o futuro.

Até que um dia percebemos que passamos tanto tempo construindo o futuro que o futuro chegou e nós continuamos construindo outro.

Talvez a tragédia não esteja em morrer.

Talvez esteja em descobrir, no fim, que passamos a vida inteira nos preparando para viver.

E aqui existe uma questão que a filosofia não pode evitar.

O que aconteceria se não houvesse um próximo estágio?

Se não houvesse o próximo ano.

O próximo emprego.

A próxima conquista.

A próxima viagem.

A próxima oportunidade.

A próxima encarnação.

O próximo mundo.

Se só existisse este instante, o que faríamos com ele?

Não é uma defesa do hedonismo. Não significa abandonar projetos, estudos, trabalho, ambições ou fé. Significa apenas desconfiar da ideia de que a vida verdadeira está sempre em outro lugar.

Porque talvez o maior engano seja transformar o presente em instrumento e o futuro em finalidade.

Vivemos hoje para viver amanhã.

E amanhã, quando chega, fazemos exatamente a mesma coisa.

Até que um dia não existe mais amanhã.

Schopenhauer talvez tenha sido pessimista ao extremo. Mas seu pessimismo possui uma virtude rara: ele nos obriga a olhar para aquilo que normalmente preferimos não enxergar.

A vida não promete satisfação permanente.

O desejo não promete repouso.

O futuro não nos deve felicidade.

E nenhuma conquista é capaz de preencher definitivamente aquilo que, dentro de nós, permanece como falta.

Talvez a sabedoria não esteja em conseguir finalmente tudo aquilo que desejamos.

Talvez esteja em descobrir o que merece ser desejado.

E, principalmente, em aprender a não transformar cada momento presente em um sacrifício oferecido ao altar do futuro.

Porque pode existir uma forma ainda mais profunda de pobreza do que não ter.

É não perceber o que se tem enquanto se espera aquilo que ainda não chegou.

A criança espera crescer.

O jovem espera começar a viver.

O adulto espera vencer.

O velho espera descansar.

E o moribundo talvez espere a verdadeira vida.

Mas talvez a pergunta mais assustadora seja justamente esta:

e se a vida que você passou tanto tempo esperando fosse exatamente a vida que estava acontecendo enquanto você esperava?

Talvez não possamos parar o pêndulo.

Mas podemos, pelo menos, aprender a permanecer alguns instantes no centro.

No presente.

Onde a vida, finalmente, não é promessa de outra coisa.

É apenas vida.

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

Alex filósofo

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

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