O peso do “Sim” e o luto do “não”: a angústia em Sartre
O filósofo francês Jean-Paul Sartre dizia que nós somos o resultado de nossas escolhas. Mas ele também lembrava que escolher uma coisa significa, obrigatoriamente, abrir mão de outra. E é aí que mora a nossa angústia.
Viver é o ato constante de selecionar caminhos. A cada bifurcação da vida, quando decidimos seguir pela direita, não estamos apenas dizendo “sim” para um novo destino. Estamos, ao mesmo tempo, decretando a morte de todas as possibilidades que existiam na estrada da esquerda.
Essa percepção é o coração do existencialismo de Sartre. Para ele, a liberdade não é uma festa leve e descompromissada. Ela é uma condenação. Fomos “condenados a ser livres” porque não há um manual de instruções para a existência. Não há um destino traçado, um roteiro cósmico ou uma desculpa externa para os nossos fracassos. Nós somos os únicos autores da nossa história.
A angústia que sentimos diante de grandes decisões não nasce do medo de errar. Ela nasce do medo de renunciar.
Quando você escolhe uma carreira, você abre mão de dezenas de outras versões profissionais de si mesmo. Quando você decide casar, você abre mão da vida de solteiro. Quando decide mudar de cidade, deixa para trás a rotina familiar do antigo bairro.
O sofrimento pelas “vidas não vividas” acontece porque nossa mente é gananciosa. Nós queremos a segurança do caminho conhecido, mas também o frio na barriga da aventura que não vivemos. Queremos o bônus de todas as opções, sem aceitar o ônus de nenhuma.
O erro que cometemos ao olhar para trás é idealizar a renúncia. O caminho que não foi escolhido parece perfeito apenas porque ele não existe. Ele não tem boletos para pagar, não tem trânsito na segunda-feira, não tem discussões de relacionamento nem frustrações profissionais.
Se você mudasse o seu passado e fizesse a outra escolha, você não encontraria uma vida sem problemas. Você encontraria apenas outros problemas.
A angústia sartreana nos ensina uma lição madura: a beleza da vida está justamente no limite. Uma vida onde pudéssemos viver tudo, ser tudo e escolher tudo seria uma vida sem valor. É o fato de podermos perder que torna o que escolhemos valioso.
Assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas significa aceitar o luto das vidas que tivemos que abandonar. Só assim podemos parar de perseguir os fantasmas do passado e, finalmente, habitar a única realidade que nos pertence: o agora.
