O que fazemos com o tempo que não pedimos? Ninguém escolhe nascer, mas todos escolhem como viver
Ninguém escolhe nascer. Essa é a condição mais universal e mais ignorada da existência humana, nós chegamos sem contrato, sem manual, sem prazo definido. E então o tempo começa a correr, silencioso, indiferente, sem se importar se estamos prontos ou não.
Os estoicos tinham uma expressão para isso, “memento mori.” Lembra-te de que vais morrer. Não como morbidez, mas como disciplina. Marcus Aurelius a repetia para si mesmo não para se paralisar, mas para não desperdiçar. Quem sabe que o tempo é finito trata cada hora de forma diferente de quem age como se fosse eterno.
Mas há uma pergunta anterior à da morte — e talvez mais difícil. Não quando acabará, mas para quê existe. Aristóteles chamava de telos a finalidade intrínseca de cada coisa. Uma faca existe para cortar. Um olho, para ver. E um homem? Para Aristóteles, para florescer — realizar plenamente o que tem de mais próprio: a razão, a virtude, a vida em comunidade. Existir sem isso não é viver. É ocupar espaço.
Nietzsche, séculos depois, jogou essa questão no extremo oposto: não há finalidade dada, não há propósito inscrito no cosmos. Há apenas a vontade — ou a sua ausência. O homem que não cria sentido para a própria vida deixa que outros o criem por ele. E aí começa uma forma silenciosa de servidão que La Boétie já descrevia no século XVI, a servidão voluntária, aceita não pela força, mas pelo hábito e pelo medo de pensar.
Este seu humilde blogueiro não tem respostas definitivas. Mas tem perguntas que não largam. E é delas, não das certezas, que vale a pena viver.
