Papo de Filósofo | O que permanece quando tudo muda?
A pergunta parece simples, mas talvez esconda um dos maiores problemas da filosofia. Se tudo muda, como podemos afirmar que alguma coisa continua sendo aquilo que é?
É aqui que aparece um conceito que aprendi ainda no primeiro período de Filosofia na UFMA, nas aulas de iniciação filosófica do Professor Dr. Thiago André, a quididade, palavra derivada do latim quidditas, relacionada a quid, “o quê”. Em termos simples, é aquilo que responde à pergunta: o que faz uma coisa ser aquilo que ela é?
Uma cadeira pode mudar de cor, envelhecer, ser reformada ou perder uma perna. Ainda assim, continuamos reconhecendo-a como cadeira, e foi exatamente esse exemplo que ouvi naquela tarde de 2009 na aula do Professor Thiago. Ele dizia que no fundo alguma coisa parece permanecer por trás das mudanças.
Mas o que seria essa permanência?
Parmênides acreditava que o verdadeiro Ser deveria ser imutável. Heráclito, ao contrário, enxergava a realidade como fluxo. Tudo passa, tudo se transforma. O rio nunca é exatamente o mesmo rio.
Talvez os dois estivessem olhando para lados diferentes do mesmo mistério.
Porque, para perceber que alguma coisa mudou, precisamos reconhecer alguma continuidade.
Pense em nós mesmos.
Você olha para uma fotografia de dez anos atrás e diz: “sou eu”. Mas seu corpo mudou, suas ideias mudaram, suas experiências mudaram. Talvez até seus sonhos sejam outros.
Então, o que permaneceu?
Aristóteles tentou conciliar essas duas forças. Uma coisa pode mudar sem deixar imediatamente de ser aquilo que é. Uma árvore cresce, perde folhas, envelhece e continua sendo uma árvore.
Mas existe um limite.
Quanto podemos mudar sem deixar de ser quem somos?
Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis da existência.
Porque, se tudo permanecesse igual, não haveria vida. Mas, se absolutamente tudo mudasse, talvez também não houvesse identidade.
Precisamos da mudança para existir.
E precisamos de alguma permanência para saber quem somos.
Talvez o verdadeiro mistério não seja descobrir aquilo que nunca muda.
Talvez seja descobrir o que precisa permanecer para que possamos perceber que alguma coisa mudou e que ainda somos nós mesmos.
E essa pergunta, talvez, diga muito mais sobre nós do que sobre o universo.
