Em 1989, o mundo viu cair um muro de concreto e acreditou que a história aprendera a lição. Esquecemos que muros nunca foram feitos apenas de pedra. Antes de o primeiro tijolo ser assentado em Berlim, já existia uma divisão invisível, e é ela que se reconstrói quando o concreto vai ao chão.
O Brasil não precisou importar o muro. Fabricou o seu com um material mais barato e mais resistente: a certeza. Cada postagem, cada grupo de família, cada discussão de mesa de bar virou um tijolo. Ladrilhamos esse muro com ironia, com memes, com a pressa de classificar o outro antes de ouvi-lo. O de Berlim tinha guardas e arame farpado. O nosso muro abrasileirado tem algoritmos que nos entregam, todo dia, a versão do mundo que já queríamos ouvir.
Hannah Arendt dizia que o mal floresce onde se abandona o pensar. O pensar, para ela, era um diálogo interior, a capacidade de se colocar no lugar de quem discorda. A polarização é justamente a recusa dessa conversa. Quando o outro deixa de ser alguém e vira uma bandeira, a política deixa de ser a arte de conviver com a diferença e passa a ser a administração do ressentimento.
Nietzsche avisou que quem luta contra monstros deve cuidar para não se tornar um. Há quem passe anos combatendo o “inimigo” e acabe espelhando seus vícios: a mesma intolerância, o mesmo desprezo, a mesma surdez. Os dois lados do nosso muro se parecem mais do que gostariam de admitir. Ambos juram defender o Brasil, e ambos tratam como traidor quem pensa diferente.
Mas o muro de Berlim também ensina outra coisa. Ele caiu não por decreto, mas porque pessoas comuns cansaram de viver separadas. Nenhuma ideologia derrubou aquele concreto, e sim a vontade teimosa de atravessar. Talvez a pergunta filosófica de nossa época seja menos “quem está certo?” e mais “quem ainda quer atravessar?”.
Um país não se reconstrói com vencedores e vencidos. Constrói-se quando alguém, de um lado, aceita ouvir o que ouve do outro, sem abrir mão do que pensa, mas abrindo mão de odiar. Os tijolos foram assentados por nós, e por nós podem ser retirados, um a um, a cada conversa honesta.

