Presidente dos Estados Unidos evita reconhecer expressamente a vitória do petista, repete questionamentos sem apresentar provas de fraude e mantém discurso ambíguo sobre o resultado das urnas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a questionar o processo eleitoral brasileiro nesta quinta-feira (29), classificando a eleição presidencial como uma “vergonha” para o país. Apesar das críticas, o republicano afirmou que pretende conversar com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL).
A declaração foi dada a jornalistas antes de Trump embarcar para um compromisso nos Estados Unidos. Questionado se pretendia telefonar para Lula e parabenizá-lo pela vitória, o presidente americano respondeu que conversaria com o brasileiro, mas voltou a atacar a condução do processo eleitoral.
“Vou falar com ele, mas acho que a eleição no Brasil foi uma vergonha”, declarou Trump.
Em outro momento, questionado sobre quem considera o verdadeiro vencedor da disputa presidencial, o republicano evitou responder diretamente. Disse que não gostaria de comentar, mas classificou o resultado como um constrangimento para o povo brasileiro.
Trump também afirmou que não tomou partido durante a disputa e mencionou que Lula teria pedido para que ele não interferisse politicamente na eleição.
A declaração representa mais um episódio de uma sequência de manifestações do presidente americano contra o processo eleitoral brasileiro. Na segunda-feira (26), Trump já havia afirmado, sem apresentar provas, que a votação parecia ter sido fraudada. Na ocasião, também disse gostar de Lula e manter uma boa relação com o presidente brasileiro.
QUESTIONAMENTOS SEM PROVAS
Entre os argumentos utilizados por Trump estão a prorrogação do horário de votação e questionamentos sobre a contabilização dos votos. O republicano, entretanto, não apresentou evidências concretas que sustentassem suas suspeitas.
A extensão do horário de votação ocorreu após solicitações relacionadas a dificuldades no transporte de eleitores. Tanto a campanha de Lula quanto a de Flávio Bolsonaro apresentaram pedidos de ampliação do período de votação.
Segundo informações divulgadas pela imprensa nacional, 34.330 votos foram registrados depois das 17h, o equivalente a aproximadamente 0,027% do total de votos computados no segundo turno.
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Nunes Marques, afirmou que não houve irregularidades capazes de comprometer a votação e reiterou a confiança da Justiça Eleitoral no sistema brasileiro.
RECONHECIMENTO INTERNACIONAL E IMPASSE DIPLOMÁTICO
Enquanto Trump mantém o discurso de desconfiança, a vitória de Lula recebeu reconhecimento de diferentes governos e lideranças internacionais.
A postura americana chama atenção especialmente porque o presidente dos Estados Unidos evita reconhecer expressamente o resultado, embora sinalize disposição para estabelecer contato com o presidente reeleito.
O cenário também envolve a relação política entre Trump e a família Bolsonaro. Flávio Bolsonaro, derrotado nas urnas, viajou para os Estados Unidos e passou a contestar publicamente o resultado eleitoral.
Até o momento, Trump não declarou que considera Flávio o vencedor legítimo da disputa, tampouco apresentou qualquer elemento que comprove fraude eleitoral.
A posição do presidente americano expõe uma contradição diplomática: admite conversar com o chefe de Estado brasileiro, mas continua utilizando declarações que colocam em dúvida a legitimidade de uma eleição cujo resultado não foi acompanhado de provas de fraude.
Para além das afinidades políticas, o episódio coloca em discussão os limites da influência de Washington sobre a política interna brasileira e a necessidade de respeito à soberania nacional.

