Você ajudou a construir o maior império de supermercados do Nordeste. Só não sabia disso
Ilson Mateus gosta de dizer que tudo o que conquistou veio de Deus e do trabalho duro. A narrativa é sedutora: um filho do interior do Maranhão que foi engraxate, operário e garimpeiro antes de fundar, em 1986, aquela que se tornaria a terceira maior rede de supermercados do Brasil. Mas um levantamento da Agência Pública levanta uma questão incômoda, por que o papel do Estado, e do dinheiro público, aparece tão pouco nessa história mal contada?
Segundo a investigação, por décadas o Grupo Mateus acumulou benefícios fiscais concedidos por governos de diferentes partidos. O Armazém Mateus, braço atacadista do grupo, obteve redução do ICMS para apenas 2%, por meio de crédito presumido. A estratégia de expansão para outros estados do Nordeste teria seguido o mesmo caminho: negociar condições tributárias favoráveis antes de abrir as primeiras lojas, uma vantagem que poucos competidores teriam condições de pleitear.
Do outro lado do balcão, os trabalhadores da rede recebem R$ 102 por mês em ticket-alimentação, menos de R$ 4 por dia, valor que só pode ser gasto nas próprias lojas do grupo. Entre 2025 e o início de 2026, cerca de 6,6 mil funcionários foram demitidos e 28 lojas fechadas em seis estados, enquanto o grupo entrava no setor farmacêutico e inaugurava novas unidades em outras praças.
Quando o Estado renuncia à arrecadação para beneficiar grandes grupos econômicos, esse dinheiro deixa de financiar saúde, educação e infraestrutura. Ou seja, você pagou. A trajetória do Grupo Mateus, como a de tantos outros conglomerados brasileiros, sugere que construir uma fortuna no Brasil raramente é só uma história de fé e esforço individual, é também uma história sobre quem tem acesso aos políticos e conexões certas.
