A REVOLUÇÃO DOS FIÉIS OU REPOSICIONAMENTO PARA QUE TUDO PERMANEÇA NO MESMO LUGAR?
Por Prof. Dr. Raimundo Castro
O discurso recente de Perez Paz precisa ser analisado com extrema prudência pelo Universo Tricolor. Não porque a torcida seja incapaz de reconhecer mudanças legítimas, mas porque a história recente do Sampaio Corrêa Futebol Clube nos ensinou que, muitas vezes, os movimentos internos do poder não representam ruptura verdadeira — representam apenas reorganização estratégica para manutenção de influência, controle político e sobrevivência institucional.
Perez afirma agora que defendia internamente a saída de Sérgio Frota há meses. Mas a pergunta inevitável permanece: onde esteve essa divergência durante todos esses anos? Porque, publicamente, o que vimos foi exatamente o contrário. Durante mais quase uma década ocupando posição central na diretoria, Perez jamais foi reconhecido pela torcida como alguém que enfrentasse os abusos, os erros estruturais, a concentração de poder ou o progressivo isolamento político do clube. Ao contrário: entrevistas, pronunciamentos e aparições públicas o mostravam como uma das principais vozes de sustentação da gestão e como alguém empenhado em desqualificar qualquer crítica como “perseguição” ou “tentativa de desestabilização”.
A torcida não esquece. Não esquece das vezes em que questionamentos legítimos foram tratados como afronta pessoal ao poder instalado dentro do clube. Não esquece das tentativas reiteradas de diminuir, ridicularizar ou desmoralizar torcedores revoltados com o sucateamento institucional do Sampaio. Não esquece do ambiente de intimidação política criado ao longo dos anos, onde discordar parecia significar automaticamente tornar-se inimigo da diretoria.
E talvez um dos símbolos mais degradantes desse processo tenha sido aquele vídeo amplamente conhecido pela torcida, em que presidente e vice-presidente submetem um torcedor a um constrangimento público, fazendo-o pedir desculpas enquanto ambos posavam como figuras praticamente incontestáveis dentro do clube — como se o Sampaio Corrêa lhes pertencesse pessoalmente e como se a torcida tivesse perdido até o direito de indignar-se diante da destruição progressiva da instituição.
Aquilo não foi um episódio isolado. Foi a expressão simbólica de uma cultura política construída dentro do clube baseada em concentração extrema de poder, culto à autoridade, silenciamento de críticas, intimidação indireta, tentativa de domesticação da torcida e perseguição política a jornalistas, opositores e torcedores críticos.
Quantas vezes torcedores foram ameaçados de processo apenas por questionarem decisões da diretoria? Quantas vezes ações judiciais — ou ameaças delas — foram utilizadas muito mais como instrumento de intimidação e tentativademonstração de força e influência, inclusive no meio jurídico, do que propriamente como legítima defesa da honra? Perez esteve e está presente em todas elas. O torcedor do Sampaio aprendeu, ao longo desses anos, que criticar a gestão frequentemente significava correr o risco de sofrer perseguição política, exposição pública, pressão jurídica ou tentativa de silenciamento.
E aqui surge talvez uma das maiores contradições desse súbito discurso conciliador: por que agora Perez tenta apresentar-se como alguém sensato, moderado, defensor da aproximação da torcida e preocupado com a democratização do clube, quando esteve diretamente associado à manutenção de um modelo político que afastou deliberadamente o torcedor do dia a dia institucional do Sampaio?
A torcida sabe que uma das marcas da gestão foi justamente o fechamento progressivo do clube. E Perez não apenas silenciou diante disso — participou ativamente desse processo. Inclusive defendendo e atuando politicamente para reformas estatutárias que reduziram drasticamente a participação efetiva do torcedor nas decisões internas, ampliando a concentração de poder, ampliando mandato e tornando o clube cada vez mais distante da sua base popular.
Como acreditar agora em um discurso de “reaproximação”, quando o que se viu durante anos foi exatamente o contrário: barreiras políticas, fechamento institucional, ausência de transparência e crescente hostilidade contra qualquer tentativa de participação crítica da torcida?
Por isso causa enorme estranhamento assistir agora a uma tentativa de reposicionamento discursivo cuidadosamente construída em tom moderado, quase emocional, como se estivéssemos diante de alguém que apenas recentemente “descobriu” os problemas do clube. Problemas estes que ele certamente sempre conheceu e que o Movimento Sampaio é do Povo denuncia há mais de oito meses de maneira documentada, consistente e institucionalizada perante Ministério Público, Justiça e Corregedoria Extrajudicial, e, mais recentemente, com Representações junto ao Conselho Nacional do Ministério Público e à Procuradoria Geral de Justiça denunciado as sucessivas declarações de suspeição por “foro íntimo” de três promotores da Promotoria de São José de Ribamar.
As representações protocoladas não tratam de questões superficiais. Estamos falando de denúncias envolvendo:possível comprometimento patrimonial do CT José Carlos Macieira; inconsistências registrais graves; questionamentos sobre cadeia dominial; dação em pagamento de bem alheio e possível nulidade de atos negociais; fragilidades na governança; ausência de transparência financeira; indícios de irregularidades em operações patrimoniais; estruturas antidemocráticas internas; possível lesão ao patrimônio histórico e cultural do clube.
E justamente agora, quando o desgaste público da diretoria se aprofundou, quando a crise financeira se tornou incontornável, quando a pressão popular aumentou com a torcida fazendo manifestações no estádio pedido ao Ministério Público que cumpra seu papel constituições, surge uma narrativa de “ruptura”.
Perez fala hoje em “reaproximar a torcida”, mas esteve durante anos exatamente ao lado de quem afastou o povo do clube. Fala em mudança, mas permaneceu silencioso enquanto jornalistas eram pressionados — e, mais do que isso, foi apontado como um dos principais, senão o principal, responsável pela saída de um jornalista crítico da gestão, chegando inclusive a gravar um vídeo em tom praticamente comemorativo sobre o episódio. Enquanto isso, torcedores eram tratados como ameaça, denúncias eram ignoradas e o patrimônio do clube mergulhava em controvérsias cada vez mais graves e preocupantes.
A torcida não quer mais maquiagem política, rearranjo interno ou simples substituição cosmética de personagens. Nossa defesa sempre foi clara e inegociável: transparência, investigação séria, democratização do clube, ressarcimento ao Sampaio Corrêa daquilo que foi vendido sem que até hoje tenha sido explicado de forma transparente para onde foram os R$ 6,75 milhões envolvidos na operação, responsabilização dos envolvidos, proteção patrimonial e devolução do clube ao seu verdadeiro dono: o povo maranhense.
Neste momento, pedimos apenas uma coisa ao Universo Tricolor: prudência. Porque o torcedor do Sampaio já aprendeu, da forma mais dolorosa possível, que lobos em pele de cordeiro costumam aparecer justamente quando o castelo começa a ruir.
Prof. Dr. Raimundo Castro

