Crítica de Quinta | O acerto de contas no salão nobre
Os gregos tinham um conceito que nos ajuda a entender certas cenas da política: a catarse é um deles. Aquele momento em que a tensão acumulada finalmente encontra sua saída, o “esvaziamento” de emoções reprimidas
A reinauguração da casa de leis de Paço do Lumiar, na última sexta-feira, foi palco de uma dessas cenas redentoras. Com autoridades, imprensa e população reunidas no mesmo salão, o mais alto mandatário do município subiu a tribuna e, com a solenidade que o momento exigia, fez o que muitos vereadores já esperavam há tempos.
Começou agradecendo. Um por um. Cada vereador teve seu momento de reconhecimento público.
Paulinho ficou por último.
E não por esquecimento.
O prefeito Fred Campos pediu desculpas publicamente ao vereador, o mesmo que, semanas atrás, havia sido chamado de “traira” pelo secretário adjunto de Trânsito nos comentários da rede social da vice-prefeita, numa cena que este blogueiro registrou aqui em primeira mão.
Mas o discurso não parou por aí. Fred foi além. Olhou para a plateia e disse o que nenhum servidor de nariz empinado, e tem muitos, queria ouvir mas todo cidadão é agente político do município queria escutar: não vai mais tolerar funcionário público destravar ninguém. Seja quem for. A exoneração virá na mesma hora.
O salão aplaudiu.
E com razão.
Aristóteles, no livro de cabeceira deste seu humilde blogueiro, Ética a Nicômaco, nos ensina que a virtude do homem não está na ausência de falhas, afinal, errar é condição humana, mas na capacidade de reconhecê-las e corrigi-las com sabedoria. O filósofo chamava isso de phronesis, a prudência prática de quem sabe o que fazer e escolhe o momento certo para fazê-lo. E de sophrosyne, a temperança de quem, podendo reagir com excesso, escolhe a medida. Fred praticou as duas. Absorveu o peso, olhou nos olhos de quem foi atingido e pediu desculpas. Por isso a crítica de hoje é positiva…
“A grandeza de um homem não está em nunca cair, mas em saber se levantar.” — Nelson Mandela
