blog

Papo de Filósofo: A batalha entre a razão e o desejo que nunca termina

Há uma pergunta que todo ser humano já se fez, ainda que sem o vocabulário para nomeá-la: devo agir pela razão ou pela emoção? A pergunta que parece moderna. É grega. E tem dois mil e quinhentos anos.

Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia, encontrou nos deuses Apolo e Dionísio duas forças para representar essa velha disputa. Apolo é a medida, a ordem, a forma, a luz que contempla a vida à distância. Dionísio é o excesso, o vinho, o êxtase, a paixão, a vida experimentada sem distância nenhuma. O erro, porém, seria imaginar que Nietzsche escolheu um deles. A tragédia grega, para ele, não nasceu da vitória de Apolo sobre Dionísio, nem de Dionísio sobre Apolo. Nasceu justamente do atrito entre os dois.

E então chegou Sócrates. Para Nietzsche, foi nesse momento que a Grécia trágica começou a perder alguma coisa. Não porque pensar fosse um erro, mas porque a razão passou a ser tratada como remédio universal, como se tudo aquilo que não pudesse ser explicado racionalmente devesse ser corrigido, reprimido ou eliminado. A razão, que poderia ser apenas uma das forças da existência, tornou-se uma espécie de tirana dos impulsos. Talvez ainda carreguemos essa herança. Desconfiamos do corpo, do desejo, da paixão, da intuição e até daquilo que sentimos, como se a vida precisasse primeiro passar pelo tribunal da lógica para então ser considerada legítima.

É por isso que a imagem da gangorra me parece tão adequada. De um lado, a razão tentando colocar ordem no mundo; do outro, o desejo querendo romper todas as regras. De um lado, aquilo que planejamos, calculamos e controlamos; do outro, aquilo que sentimos, desejamos e, muitas vezes, nem sabemos explicar. Passamos a vida tentando equilibrar essas duas forças. Há momentos em que pensamos demais e sentimos de menos. Em outros, sentimos tanto que a razão parece chegar atrasada. Quem finge que só existe Apolo mente para si mesmo. Quem se entrega completamente a Dionísio acaba sendo levado pelo próprio excesso. Talvez viver seja justamente isso, permanecer sobre a gangorra, sabendo que o equilíbrio não é um lugar onde chegamos, mas um movimento que precisamos aprender a sustentar.

E talvez seja aí que Nietzsche continue tão incômodo. Porque ele nos obriga a olhar para dentro e perceber que nem sempre somos tão racionais quanto imaginamos. Muitas das nossas escolhas nascem primeiro do desejo e só depois recebem uma justificativa da razão. Dizemos que foi uma decisão lógica, quando talvez já tivéssemos decidido pelo coração. Dizemos que desistimos porque era o melhor, quando talvez estivéssemos apenas com medo. Chamamos de prudência aquilo que às vezes é covardia e de coragem aquilo que, em certas ocasiões, é apenas impulso.

Os gregos tinham dois deuses para representar essa contradição. Nós temos apenas um espelho.

E talvez a pergunta mais difícil não seja saber qual dos dois está certo, mas descobrir qual deles está segurando a nossa mão quando acreditamos estar escolhendo livremente.

Papo de Filósofo é uma coluna de reflexão filosófica de Alex Filósofo.

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

Alex filósofo

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

Deixe um comentário