Papo de filósofo | Vidas não vividas
Não é que tenhamos pouco tempo, mas é que perdemos muito
Sexta à noite. A semana finalmente parece diminuir o ritmo, e estes últimos dias “Dionisíacos” dão uma trégua, e uma pergunta insiste em não sair da cabeça deste seu humilde escriba: quantas vidas cabem dentro de uma vida? A resposta parece óbvia, uma. Nascemos, vivemos, morremos. Mas existe algo de enganoso nessa aritmética. Dentro de cada existência vivem outras vidas, aquelas que poderiam ter sido e nunca foram. Vidas adiadas, abandonadas pelo caminho, guardadas para depois, à espera de um momento que talvez nunca chegue. Apenas um quase…
Benjamin Disraeli escreveu que “A vida é muito curta para ser pequena”, não recebemos uma vida curta; nós é que a tornamos curta ao desperdiçá-la. E talvez uma das formas mais sofisticadas de desperdiçar a existência seja transformá-la em sala de espera. Esperamos, enfim, encontrar o momento certo. E enquanto esperamos, a vida acontece e as oportunidades passam… até que não possamos mais voltar atrás.
Há também as vidas que não vivemos porque escolhemos outra. Cada escolha é uma renúncia. O caminho seguido elimina silenciosamente todos os outros que poderiam ter sido tomados.
O amor vivido carrega consigo um grande amor que nunca vai acontecer. Isso não é necessariamente uma tragédia. É o preço de sermos finitos. O perigo não está em escolher uma vida em vez de outra, mas em atravessar a própria vida distraído, sem perceber que perdeu ou está perdendo alguma coisa bonita e intensa de se viver…
Talvez a pergunta mais incômoda não seja “o que quero fazer da minha vida?”, mas “estou realmente vivendo a vida que escolhi ou apenas cumprindo a vida que dá?”. Sexta-feira termina, mais uma semana desaparece do calendário e nós seguimos planejando, esperando, adiando. Até que um dia percebemos o presente passando sem que estivéssemos realmente nele. Fica então a pergunta para este fim de semana: quanto da sua vida vai ser realmente vivida e quanto vai ser jogada fora, viendo aquilo que você não quer viver de verdade?
