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A banalização do abuso no serviço público e o nascimento dos pequenos tiranos

Étienne de La Boétie já alertava que nenhum pequeno tirano se sustenta sozinho. Toda tirania cotidiana nasce da conivência silenciosa de quem se acostuma à opressão e de quem, tendo poder para impedir o abuso, escolhe apenas assistir ou simplesmente remanejar as “situações”

Existe algo que já vem se tornando perigosamente comum dentro de muitos espaços públicos. O abuso deixou de causar espanto. A humilhação virou cultura organizacional. O medo passou a ser confundido com autoridade em uma lógica Maquiavélica.

“É melhor ser temido do que amado, quando se tem de abrir mão de uma das duas coisas”. O problema é que muitos aprenderam apenas a parte do medo, e esqueceram completamente o limite entre autoridade e abuso.

E talvez seja exatamente assim que nascem os pequenos tiranos.

Este humilde blogueiro já recebeu inúmeras denúncias envolvendo um projeto que deveriam “educar” a cidade, criado para acolher crianças e fortalecer a inclusão. Uma iniciativa que, no papel, representa aquilo que o serviço público tem de mais nobre na teoria. Mas que, segundo relatos enviados à redação, estaria sendo ofuscada por práticas autoritárias, gritos, intimidações e um ambiente de constante pressão psicológica.

Funcionários descrevem um local onde servidores adoecem emocionalmente e pedidos de saída se acumulam. Funcionários afirmam sofrer humilhações constantes. 

Vários funcionários já teriam pedido para sair do polo.

Crianças atípicas teriam sido alvo de gritos. Servidores descrevem um espaço onde o medo passou a ocupar o lugar do acolhimento.

As denúncias também afirmam que, durante a ausência de monitor no turno vespertino, a própria coordenadora se recusou a permanecer com as crianças, acionando às pressas uma funcionária do turno da manhã para evitar o colapso do atendimento. O problema, aparentemente, nunca é dela. Apenas a autoridade.

E talvez seja exatamente aqui que filosofia de Étienne de La Boétie continue assustadoramente atual.

Em sua obra Discurso da Servidão Voluntária — livro de pouco mais de 100 páginas que este humilde blogueiro já teve o prazer de ler diversas vezes e que dá tranquilamente para terminar no trajeto do Maiobão até o Centro — o filósofo francês Étienne de La Boétie, ainda no século XVI, observava que estruturas autoritárias raramente sobrevivem apenas pela força. Elas se sustentam porque alguns se acostumam ao silêncio, outros protegem pequenos privilégios e muitos passam a tratar o absurdo como rotina.

O mais perigoso da opressão não é o grito.

É o momento em que ele deixa de causar espanto nas pessoas e vira algo habitual.

O projeto não parece padecer por falta de proposta. A ideia possui relevância social. O problema começa quando pessoas sem preparo emocional para lidar com gente, recebem autoridade sobre crianças, servidores e famílias vulneráveis.

Porque uma criança atípica, como as que foram oprimidas pela tia coordenadora, não escolhe o ambiente onde será acolhida. Ela depende integralmente da sensibilidade de quem conduz aquele espaço. E quando acolhimento se transforma em intimidação, o Estado fracassa naquilo que deveria ser sua missão mais básica, proteger os mais frágeis.

Talvez o problema nunca tenha sido o projeto.

Talvez tenha sido quem colocaram para cuidar dele.

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

Alex filósofo

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

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