O que vazou da Casa de Noca não foi só um vídeo. Foi um retrato cru, sem maquiagem, de como parte do poder local enxerga a coisa pública. A confusão foi grande, o tom foi alto e a cena foi mais que constrangedora. Representantes da plebe, tomadas por emoção e intimidade excessiva, trataram a questão da gestão do bem estar dos luminenses como se estivessem dividindo prêmios num churrasco entre amigos.
O vídeo, enviado num grupo de WhatsApp que deveria ser privado, o famoso grupo da casa carimbo, escancarou o que normalmente fica escondido atrás de discursos ensaiados. Cargos públicos sendo repartidos no grito, setores inteiros apropriados no verbo possessivo, como se enfermeiras, administrativos e cofres tivessem dono. Nada de critério técnico, nada de respeito institucional. Só a velha lógica do “isso aqui é meu”.
Uma bateu no peito e avisou que ficaria com o administrativo e com as enfermeiras, como quem escolhe mesa na festa. Outra, sem cerimônia, chamou o cérebro da operação de “papai” e garantiu para si a parte financeira. O dinheiro, claro, sempre desperta mais amore$$. O tom era de intimidade, mas o conteúdo era de usurpação.
O mais grave não é o vazamento. É o que ele revela. Uma cultura política que confunde mandato com posse, cargo com favor, gestão com barganha. Enquanto isso, do lado de fora, a população segue acreditando que Saúde pública se constrói com seriedade, não com divisões de cargos em grupo de WhatsApp. O vídeo apenas confirmou o que muitos já sentiam. Em alguns gabinetes, o poder ainda é tratado como propriedade privada.
