Crítica de Quinta | O erro de odiar Hermes

Quando o poder prefere atacar quem fala em vez de corrigir o problema que foi exposto… algo de errado não está certo

Depois de muitas luas observando o Olimpo em silêncio, anotando os humores dos deuses e respeitando o tempo das nuvens, Hermes decidiu agitar um pouco o ar ao redor do palácio celestial. Não foi um trovão, apenas um sussurro levado pelo vento. Ainda assim, foi mais do que todos os outros conseguiram durante um ano, e o suficiente para que alguns deuses tropeçassem em suas próprias sandálias — que não parecem ser da humildade — como se não estivessem acostumados a ouvir ecos fora do coro oficial.

Segundo os passarinhos que voam pelos corredores de mármore, o clima mudou de repente. Comentam que Zeus passou a desconfiar até da própria sombra e que uma nova espécie de julgamento começou a se formar no topo da montanha. Dando início a uma era de caça às bruxas.

Ainda conforme os sussurros que circulam entre colunas e nuvens, Zeus teria chamado alguns mortais para encontros reservados em salas frias como o inverno do Hades. Lá, distribuiu advertências travestidas de ordens divinas, deixando claro quem segura o raio e quem deve apenas baixar a cabeça.

Não é a primeira vez que o Olimpo reage assim diante de quem leva algo aos mortais. Conta-se que Prometeu, ao roubar o fogo dos deuses para entregá-lo aos homens, foi tratado como traidor e condenado a um castigo eterno. Desde então, parece que toda verdade trazida do alto para baixo carrega o risco de ser confundida com afronta, e todo mensageiro com um rebelde.

O que intriga Hermes é a estranha lógica do Olimpo. Quando ele pede explicações aos deuses, o silêncio cai como neblina. Mas quando alguém resolve falar, inicia-se a caça ao mensageiro. Em vez de enfrentar os desvios apontados nas tábuas de pedra, prefere-se descobrir quem ousou desvela-lós. E assim, no alto da montanha, o problema deixa de ser a verdade e passa a ser quem teve coragem de carregá-la nas sandálias aladas.

Talvez o Olimpo ainda tenha tempo de aprender com seus próprios tropeços comunicacionais. Nenhum trono se sustenta apenas com raios, e nenhum poder dura muito quando se cerca apenas de ecos. Há momentos em que é mais sábio escutar do que perseguir, compreender antes de punir. Afinal, mesmo entre deuses, governar sem mensageiros é governar no escuro. E, no fim das contas, é sempre melhor ter o portador da palavra ao seu lado do que transformá-lo em inimigo. É um erro odiar Hermes.

Glossário mitológico

Hermes

Na mitologia grega, é o deus mensageiro. Representa a comunicação, a velocidade, a travessia entre mundos e a transmissão de informações entre deuses e mortais. Também é associado à astúcia e à palavra que circula, nunca à força.

Zeus

É o rei dos deuses do Olimpo, senhor dos raios e do trovão. Simboliza o poder supremo, a autoridade e a ordem estabelecida. Cabe a ele manter o controle do Olimpo e punir quem desafia sua vontade.

Prometeu

Titã que desobedeceu Zeus ao roubar o fogo dos deuses e entregá-lo aos humanos. O fogo simboliza conhecimento, técnica e consciência. Por esse ato, foi condenado a um castigo eterno. Representa aquele que leva luz aos homens e paga o preço por isso.

Olimpo

Montanha sagrada onde vivem os deuses. Na metáfora, simboliza o centro do poder, o lugar das decisões e da autoridade.

Fogo

Mais do que chama física, é símbolo de saber, verdade e progresso. Levar o fogo aos homens é levar conhecimento, romper o monopólio divino sobre a luz.

Alex filósofo

O jornalista Alex Filósofo (DRT: 2255/MA), professor e apaixonado pela Filosofia, também é empreendedor, blogueiro e graduando em Marketing Digital. Além disso, se destaca como ativista social e cultural. Sua formação intelectual, influenciada pelos pensamentos de grandes nomes da filosofia e da política, resulta em uma crítica sempre desafiadora e esclarecedora.

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