Enquanto Dino aperta o cerco sobre Lulinha, Palácio move peças contra aliado do ministro no DF
“Os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem.” — Tucídides, no Diálogo dos Mélios [1]
O calendário, às vezes, fala mais alto do que qualquer nota oficial.
No dia 4 de agosto, o ministro Flávio Dino, do STF, autorizou a abertura de um terceiro inquérito contra o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente da República. O novo procedimento apura suposto tráfico de influência de aliados do empresário junto a órgãos do governo federal. Na mesma decisão, Dino determinou um quarto inquérito, este para investigar vazamentos de informações sigilosas ligadas ao caso.
A defesa de Lulinha, em nota, já falou em “instrumentalização de setores da Polícia Federal a serviço de interesses políticos e eleitorais”. O próprio Presidente Lula, na semana anterior, afastou publicamente qualquer ideia de privilégio: “Ele vai ter que provar que é inocente como eu provei, vai ter que provar.”
Dias depois, uma movimentação em sentido inverso ganhou os bastidores de Brasília.
Segundo apurou a CNN, o vice-presidente Geraldo Alckmin telefonou a Ricardo Cappelli na quinta-feira (6), a pedido do próprio Lula. Cappelli é o candidato do PSB ao governo do Distrito Federal e homem de confiança de Dino desde o Governo do Maranhão até a passagem de ambos pelo Ministério da Justiça, quando o hoje ministro do STF ainda era titular da pasta e Cappelli, seu número dois.
A sondagem foi lida, nos bastidores, como tentativa do PT de retirar o PSB da disputa. Antes disso, no sábado, o presidente do PT, Edinho Silva, já havia tentado convencer Cappelli a abandonar a candidatura. A proposta foi recusada.
O PT lançou Leandro Grass ao governo do DF, em chapa com o PSOL. Ao Senado, concorrem Erika Kokay (PT) e Leila Barros (PDT). Nessa conta, sobra pouco espaço institucional para o PSB. É essa a justificativa que circula entre petistas: aritmética de coligação, nada além disso.
Cappelli, por sua vez, tem dito a interlocutores que Lula nunca o procurou diretamente sobre uma eventual saída, atribuindo a pressão à cúpula do PT, não ao presidente. Sua candidatura foi oficializada em convenção do PSB-DF no dia 3 de agosto, um dia antes do novo inquérito contra Lulinha.
Fontes ouvidas sob reserva pela redação avaliam que a proximidade de datas, e de personagens, não deveria ser descartada como simples coincidência, embora nenhum dos episódios estabeleça, publicamente, relação de causa entre um e outro.
Este seu humilde blogueiro registra: não há, até o momento, qualquer elemento que comprove nexo entre o avanço das investigações sob relatoria de Dino e o movimento do Planalto contra seu antigo subordinado. A hipótese aqui é apenas isso, hipótese, e deve ser lida com a devida presunção de que a versão oficial, a da aritmética eleitoral, pode ser exatamente o que diz ser.
Resta saber se, na política, existe mesmo lugar para coincidências.
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[1] A famosa frase “Os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem” é do historiador grego Tucídides. Ela aparece na obra A Guerra do Peloponeso, mais especificamente no célebre episódio conhecido como o Diálogo dos Mélios, que relata o debate entre os atenienses e os habitantes da ilha de Melos.
