“O sujeito ideal do domínio totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas as pessoas para quem a distinção entre fato e ficção e a distinção entre verdadeiro e falso já não existem.”
Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo (tradução livre)
Houve um tempo em que se brigava sobre o que fazer com os fatos.
Hoje se briga sobre quais são os fatos.
Este humilde escriba acha a diferença decisiva. Uma democracia suporta projetos opostos. Não suporta a falta de chão comum.

Tudo começa numa constatação incômoda: quase tudo o que sabemos, sabemos porque confiamos em alguém (Hardwig, 1985). Ninguém verifica o que lê. Acredita em quem escreveu.
O problema, portanto, nunca foi saber. Foi confiar cegamente na opinião alheia.
Para C. Thi Nguyen (2020), há duas armadilhas que costumamos confundir.
A primeira é a bolha, que deixa certas vozes de fora sem que percebamos. Fure a bolha, e a informação entra.
A segunda é a câmara de eco, bem mais perigosa. Nela, as vozes de fora não faltam: foram desacreditadas de antemão. Quem discorda é pago, é mentiroso, é inimigo. E o fato novo, em vez de corrigir, confirma a suspeita.

Boatos e fofocas existem em todas as sociedades, em todas as épocas. Mas a internet os intensificou. Com tanto acesso à informação, muita gente não filtra o que recebe e compartilha notícias sem se perguntar se são verdadeiras.
Diante dessa avalanche de notícias falsas, é preciso uma postura crítica: usar a razão, guiado pelo princípio da dúvida.
Diante da enxurrada diária de informações, vale perguntar: quem se beneficia com essa notícia? Ir atrás das fontes. E, sobretudo, questionar a si mesmo.
Eu sei de verdade aquilo que acho que sei?

