Em duas semanas, Lula foi reeleito, Flávio Bolsonaro deixou o país, Trump perdeu o Congresso e Netanyahu ficou sem maioria. A coruja de Minerva voou cedo
“A coruja de Minerva só levanta voo ao entardecer.” — Hegel, Princípios da Filosofia do Direito
O entardecer chegou.
E com ele, uma sequência de notícias que a extrema direita, dentro e fora do Brasil, certamente não encomendou.
Brasil: a virada
No dia 25 de outubro, Lula (PT) foi reeleito presidente. Venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno.
O detalhe que pesa: Flávio terminara o primeiro turno na frente. Segundo os números do TSE, 47,10% dos votos válidos contra 45,08% de Lula.
A virada deu a Lula o quarto mandato. Ele é o primeiro presidente a conquistar quatro eleições presidenciais pelo voto popular, segundo a imprensa nacional.
A saída de Flávio
Dois dias depois, na noite de terça-feira (27), Flávio Bolsonaro deixou o Brasil com a mulher e as duas filhas.
Segundo a imprensa, o destino foram os Estados Unidos, com passagem pela Argentina. A família pousou em Miami.
Lula comentou o episódio ironizando: para a família Bolsonaro, disse, o Brasil seria “o segundo país”.
Nordeste: o boicote
O apoio público do cantor Jorge, da dupla Jorge e Mateus, a Flávio Bolsonaro cobrou a conta nas redes.
Internautas do Nordeste pedem o cancelamento dos shows da dupla na Virada Recife, marcada para 27 de dezembro, na Praia do Pina. Há campanha semelhante em relação a Fortaleza.
Estados Unidos: a onda azul
Na terça-feira (3), os americanos foram às urnas nas eleições de meio de mandato.
Os democratas retomaram a Câmara e o Senado, segundo o New York Times. No Senado, chegaram a pelo menos 54 cadeiras, contra 44 dos republicanos. Eles viraram sete assentos que estavam em mãos republicanas.
Trump disse ao jornal que aceita os resultados e está pronto para trabalhar com os democratas.
É um recado claro. Trump continua presidente. Mas governará os dois últimos anos com a oposição no comando das duas Casas.
Israel: Netanyahu sem maioria
Nas eleições de 28 de outubro, a coalizão de direita de Benjamin Netanyahu perdeu a maioria no Parlamento, segundo a Reuters.
Mas ele ainda não caiu.
O resultado não abriu caminho claro para o principal rival, Gadi Eisenkot (Yashar). Netanyahu segue como primeiro-ministro interino. O presidente Isaac Herzog ouve os partidos nestes dias 4 e 5 de novembro antes de indicar quem tentará formar governo. Se ninguém conseguir, vem nova eleição.
A vitória democrata nos EUA entrou na conta. Netanyahu havia apoiado publicamente os republicanos. Rivais como Yair Lapid dizem que ele não pode continuar no cargo, e Eisenkot promete restabelecer os laços com Washington. Netanyahu, até o fechamento da Reuters, não comentou o resultado americano.
Paraguai: o banco que travou
Na segunda-feira (2), a diretoria do Banco Central do Paraguai decidiu, por unanimidade, colocar o maior banco do país, o Ueno Bank, em “regime de resolução”. A medida foi anunciada no dia 3.
O motivo: o índice de solvência do banco ficou abaixo da metade do mínimo legal.
Saques e transferências estão bloqueados. O Ueno tem cerca de 3 milhões de clientes, o equivalente a 60% dos adultos do país. Administrava algo entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em dinheiro público.
O Ministério Público mandou prender oito pessoas ligadas à gestão, incluindo o presidente do banco. A investigação apura suspeita de gestão fraudulenta. O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, ex-presidente do Ueno, teve a renúncia pedida pelo presidente Santiago Peña. Peña foi sócio do grupo controlador até março de 2025 e nega irregularidades. A oposição fala em impeachment.
Aqui entra outro ponto que a imprensa destaca: o Paraguai virou destino de bolsonaristas. Segundo a Revista Fórum, mais de 23 mil residências foram concedidas a brasileiros em 2025, pessoas que saíram do Brasil e depositaram todas as suas economias no país vizinho, criticando o Brasil “comunista” em busca de uma vida melhor no paraíso “liberal” latino”
O que resta?
Semana macabra? Para a extrema direita mundial, sim.
Este humilde escriba anota os fatos e deixa a pergunta suspensa: e se a esquerda, tantas vezes dada por morta, for a fênix, e o que arde agora for outro (lado)?

