Redes sociais fazem tão mal quanto cigarro para jovens, alertam médicos britânicos
Toda época cria seus próprios narcóticos para suportar a existência. Talvez as redes sociais tenham se tornado a válvula de escape, e ao mesmo tempo a prisão silenciosa, dessa geração.
Durante décadas, o cigarro ocupou o centro das preocupações quando o assunto era saúde pública entre jovens. Agora, médicos britânicos acreditam que outro vício silencioso tomou esse lugar, o das redes sociais. Uma das principais organizações médicas do Reino Unido afirmou que o excesso de tempo de tela e o uso desenfreado das plataformas digitais já causam danos comparáveis aos provocados pelo tabaco.
A discussão ganhou força após a Academy of Medical Royal Colleges defender que médicos passem a perguntar, durante consultas, sobre o uso de redes sociais por crianças e adolescentes. Segundo a entidade, os impactos vão desde ansiedade e depressão até exposição precoce a conteúdos violentos, autodestrutivos e sexualizados. A psiquiatra infantil Emily Sehmer chegou a afirmar que os riscos podem ser “muito piores” que o cigarro, já que bastam poucos segundos online para uma criança encontrar conteúdos nocivos.
O governo britânico agora discute medidas mais rígidas para menores de 16 anos. Entre as possibilidades estão limites de horário para aplicativos, bloqueio de recursos como rolagem infinita e até proibição parcial de plataformas, modelo já adotado pela Austrália. O debate também envolve Roblox, Discord e até chatbots de inteligência artificial, numa tentativa de entender como a tecnologia molda o comportamento de uma geração inteira antes mesmo da vida adulta.
O tema divide especialistas. Enquanto alguns defendem restrições severas, outros acreditam que proibir pode empurrar jovens para ambientes ainda menos controlados. Há também dúvidas sobre a eficácia dessas leis, já que muitos adolescentes conseguem burlar sistemas de verificação de idade. Mesmo assim, cresce a pressão para que as big techs sejam responsabilizadas pela arquitetura viciante de suas plataformas, especialmente mecanismos como autoplay, notificações constantes e rolagem infinita.
No fundo, a discussão parece ir além da tecnologia. A pergunta que começa a surgir é mais filosófica do que digital, o que acontece com uma geração criada para nunca ficar sozinha com os próprios pensamentos?
