Há histórias antigas que parecem mais atuais do que manchetes de fraudes na previdência. Quem já folheou os relatos sobre César Bórgia lembra daquela habilidade quase sobrenatural de transformar aliados em degraus e, depois, descartá-los sem a menor cerimônia. Ele avançava território, deixava parceiros pelo caminho e seguia adiante como se estivesse só cumprindo um rito natural do poder. O curioso é perceber como episódios tão distantes continuam ecoando no presente, quase como se “o futuro repetisse o passado”
Julinho chegou ao poder numa travessia cheia de incertezas, ainda tentando resolver pendências na Justiça e buscando quem segurasse a base para que sua candidatura não desabasse. Josimar de Maranhãozinho, o Moral da BR, foi um desses apoios indispensáveis. Não foi caridade política, claro, foi cálculo, troca, sobrevivência, como sempre acontece nos bastidores das eleições. Mesmo assim, foi esse gesto que manteve Julinho de pé naquele primeiro pleito.
Quando chegou a campanha da reeleição, tudo mudou de repente. O prefeito rompeu com quem havia sido fundamental na sua caminhada e fez isso de um jeito que muita gente já imaginava, mas que ele ainda não tinha mostrado com tanta clareza. A ruptura não soou apenas como reposicionamento partidário, veio carregada de algo mais íntimo, quase um traço de temperamento. A forma como virou as costas para Josimar escancarou o modo Julinho de operar, um estilo que se repetiu ao longo dos dois mandatos.
No fim das contas, a sensação é de que Julinho não rompeu apenas com um aliado, mas com a própria ideia de lealdade que sustenta qualquer trajetória política. Poder até muda muita coisa, mas não apaga o caminho percorrido até ele. E quando alguém escolhe esquecer quem o sustentou nos momentos mais incertos, acaba caminhando pelo mesmo terreno escorregadio que já derrubou figuras como o próprio César Bórgia, que avançou rápido demais e perdeu apoio quando mais precisava. Julinho segue um roteiro parecido, e a história mostra que esse tipo de escolha sempre cobra a fatura no tempo certo.
César Bórgia, duque italiano do início do século XVI e filho do papa Alexandre VI, inspirou Nicolau Maquiavel ao escrever “O Príncipe”. Sua habilidade em usar aliados, truques e até enganos para consolidar poder serviu como exemplo de como, segundo Maquiavel, a astúcia e a estratégia muitas vezes se sobrepõem à moral na política.
