O Nordeste dos analfabetos e o Nordeste dos primeiros lugares
Volta e meia surgem textos, geralmente publicados por jornalistas identificados com o campo conservador, destacando que o Nordeste concentra mais da metade dos analfabetos do país. O dado é verdadeiro. Mas muitas vezes ele aparece acompanhado de uma sugestão implícita, a de que a região seria um retrato do fracasso de governos associados à esquerda. É uma leitura politicamente conveniente, mas intelectualmente insuficiente.
O número não é falso e revela uma dívida histórica que o país jamais conseguiu pagar integralmente. Mas existe um problema quando um dado correto é apresentado sem contexto suficiente. Ele pode iluminar uma parte da realidade e esconder outra.
Porque o mesmo Nordeste que lidera os índices de analfabetismo também aparece, ano após ano, entre os maiores destaques do Enem. Não é raro encontrar escolas cearenses ocupando o topo dos rankings nacionais. Ceará, Piauí, Pernambuco e Rio Grande do Norte frequentemente figuram entre os estados com melhor desempenho em redação e entre os que mais produzem alunos com notas máximas.
A aparente contradição desaparece quando se compreende que estamos falando de dois fenômenos diferentes. O analfabetismo está concentrado principalmente entre a população mais velha, fruto de décadas de abandono educacional. Já os resultados do Enem refletem o desempenho das gerações mais recentes, beneficiadas por políticas públicas, expansão da rede de ensino e investimentos que alguns estados nordestinos fizeram melhor do que muitas regiões mais ricas do país.
Reduzir o Nordeste ao analfabetismo é tão equivocado quanto ignorar a existência do problema. A região carrega uma herança pesada de exclusão educacional, mas também abriga alguns dos casos mais bem-sucedidos da educação brasileira. O Nordeste dos analfabetos existe. Mas também existe o Nordeste que coloca alunos entre os melhores do Brasil. E qualquer análise séria precisa enxergar os dois.
