Guerras em série, Estados fora de controle e um mundo onde a força voltou a valer mais que a lei
O direito internacional está morto. Não porque seus tratados tenham sido apagados, mas porque deixaram de ser acreditados. Assim como Deus, na sentença de Nietzsche, ele continua sendo mencionado, citado em discursos solenes e invocado em reuniões formais, mas já não organiza o mundo. As nações ainda falam em normas, em legalidade e em soberania, porém agem como se nenhuma dessas palavras tivesse peso real. O que antes funcionava como limite agora sobrevive apenas como linguagem.
No lugar da regra, ergueu-se a força. A guerra entre Rússia e Ucrânia, o conflito permanente entre Israel e Gaza e os ataques recentes ao Irã mostram que a política voltou a ser conduzida por mísseis e não por acordos. A diplomacia tornou-se um intervalo entre bombardeios, e o direito, um adereço retórico. Como na morte de Deus, não houve cerimônia fúnebre. O colapso ocorreu em silêncio, enquanto os Estados aprendiam que podiam agir sem pedir permissão.
Na América Latina, a captura do presidente da Venezuela por forças estrangeiras tornou visível o que antes parecia restrito a zonas de guerra tradicionais. Um chefe de Estado removido sem mediação internacional efetiva não é apenas um fato político, é um sintoma. O princípio da soberania, que era um dos pilares da ordem global, passa a depender da correlação de forças. Não é a lei que decide quem governa, mas quem tem poder suficiente para impor sua decisão.
O problema, como em Nietzsche, não é apenas que algo morreu, é o que surge no vazio deixado por isso. Sem um fundamento comum, cada país passa a criar sua própria moral, sua própria justiça e sua própria exceção. A falência do direito internacional não é jurídica, é existencial. Ela anuncia um mundo em que não há mais instância superior que diga “não”, apenas múltiplas vontades competindo entre si. A pergunta que resta não é quem está certo, mas quanto tempo esse mundo suporta existir sem transformar a força na única lei possível.
