Toda semana esta coluna tenta olhar para a política com um certo humor ácido. Afinal, como diz o próprio nome, a Crítica de Quinta Categoria nasceu para observar o poder sem muita cerimônia. E, às vezes, a própria realidade ajuda.
São Luís, vez ou outra, para por causa dos próprios ônibus. E quando isso acontece, não é só o motor que desliga… começa também o velho jogo de empurra.
O curioso é que essa história já foi contada tantas vezes que parece até roteiro repetido. A greve surge, o debate sobre aumento de passagem volta à mesa, e o transporte público da capital continua sendo aquela velha pedra no sapato que nenhum prefeito consegue tirar de vez.
Nesta sexta-feira 13, a cidade acordou com as paradas cheias e as avenidas vazias de coletivos. Um cenário que já virou quase ritual anual. De um lado, trabalhadores cobrando salários. Do outro, empresas pressionando por reajustes. No meio disso tudo, a população esperando na calçada enquanto a culpa pega o primeiro carro por aplicativo disponível para longe da prefeitura.
Segundo o Sindicato dos Rodoviários do Maranhão, a paralisação do sistema urbano aconteceu porque as empresas não efetuaram o pagamento dos trabalhadores. Sem salário na conta, motoristas e cobradores decidiram cruzar os braços logo nas primeiras horas do dia.
Enquanto isso, o sistema semiurbano, que liga a capital a cidades da região metropolitana como Paço do Lumiar, Raposa e São José de Ribamar, continuou rodando quase normalmente. Ainda assim, o funcionamento não foi pleno. No Terminal da Cohab, por exemplo, os coletivos não entraram. As catracas permaneceram fechadas e passageiros precisaram aguardar do lado de fora, tentando reorganizar rotas e horários.
No meio da confusão, o prefeito Eduardo Braide apareceu nas redes sociais para comentar o caso. Em vídeo, afirmou que a paralisação não teria justificativa administrativa e sugeriu que a greve estaria sendo estimulada por interesses políticos. Segundo ele, os compromissos firmados entre a prefeitura, as empresas e os trabalhadores estariam sendo cumpridos.
Braide também insinuou que a situação poderia ter relação com o ambiente político que começa a se formar no Maranhão. O prefeito citou, de forma indireta, o fato de seu nome aparecer com frequência em pesquisas de intenção de voto para o governo do estado, sugerindo que haveria tentativas de desgastar sua imagem.
Mas, olhando com um pouco mais de distância, o episódio parece repetir um roteiro antigo. O transporte público em São Luís há anos se transformou em uma espécie de pedra no sapato de quem ocupa a prefeitura. Quase todo ano a cidade vive alguma paralisação, geralmente em meio a disputas salariais, pressões empresariais e discussões sobre reajuste da tarifa.
No fundo, o impasse costuma chegar sempre ao mesmo ponto: o aumento da passagem. Quando as engrenagens travam, quem acaba pagando a conta quase sempre é o passageiro.
Durante a campanha e também no início da gestão, Braide chegou a prometer uma nova licitação do sistema de transporte coletivo, com a possibilidade de substituir empresas e reorganizar o modelo de concessão que opera na capital há décadas. A proposta era justamente quebrar o ciclo de crises recorrentes.
Por enquanto, porém, a realidade segue parecida com a de outros anos. A cidade para, o debate político esquenta e a população fica no meio do caminho.
Nesta sexta-feira 13, a metáfora parece inevitável. Em São Luís, o azar não veio de lenda ou superstição. Veio sobre rodas que, mais uma vez, decidiram não girar.
